A TRILHA MAIS DIFÍCIL DAS NOSSAS VIDAS (ALA-KUL)

By campodegelo

O Quirguistão era muito provavelmente o ponto mais esperado de toda nossa jornada de 19 mil quilômetros de carona.

Reconhecido por muitos como a Suíça da Ásia Central, esse país possui mais de 80% do seu território acima dos 2.000 metros de altitude.

Nada mais justo do que subir uma das suas montanhas, certo?

*** Se quiser, pule a ladainha, e vá para o guia lá embaixo ***

Foi aqui que descobri a utilidade dos blogs de viagem, mas também a nossa incapacidade física.

Estávamos na região de Issyk-Kul, considerado o 10.º maior lago do mundo em volume, e o maior lago salgado após o mar Cáspio.
Pois é, o mar Cáspio não é um mar.

Ao redor da imensidão azul turquesa que não congela (devido a sua alta salinidade), uma cadeia de montanhas que se estende até a China.

Aliás, seu nome Issyk-Kul significa “lago quente” na língua quirguiz, mas por se tratar do mês de Outubro (outono no hemisfério Norte) não arriscamos um mergulho.

SAIBA AS SUAS LIMITAÇÕES

Da capital do Quirguistão (Bishkek) se pode tomar uma marshrutka (van) até Karakol, às beiras do lago, e de lá as montanhas já se tornam imponentes e desafiadoras.

Lembra quando falei da nossa incapacidade física?

A trilha mais famosa da região leva até o lago de Ala-Kul, quase a 4,000 metros de altitude, e segundo blogs o seu grau de dificuldade seria moderado.
Mas, como definir moderado?

Creio que superestimamos o nosso preparo. Em contrapartida nossa vontade não nos abandonou.

PREPARAÇÃO

Karakol é uma cidade para se preparar. Cafés e lojas especializadas estão espalhadas por tudo, portanto se equipe devidamente.

Não pegamos nenhum guia, então sabíamos que deveríamos estar preparados.

  • Comida para 3 dias, ou seja 9 refeições para cada um, totalizando 18 refeições.
  • Mapa no aplicativo Maps.ME baixado devidamente. Se utilizar o celular, recomendo ter um powerbank também.
  • Snacks para dar energia, sejam barras de cereal, ou um chocolatinho.
  • Para o café da manhã um pouco de cereal ou aveia, com algumas frutas.
  • Latas de atum e sardinha, ou coisas prontas que só precisam ser aquecidas também são boas pedidas para os trilheiros menos cozinheiros.

Possuímos uma panela de alumínio que pode ser utilizada com álcool ou um combustível líquido. Por ser leve e portátil, ela foi uma das nossas melhores amigas, fosse para preparar uma refeição para duas pessoas ou apenas para aquecer água para um chá revigorante.

Master Chef Montanha

Não se preocupe com água. Na maior parte da trilha o rio estará ao seu lado e suas gélidas corredeiras são mais mais recomendáveis que qualquer garrafa de água mineral da vendinha.

Fiquem atentos à previsão do tempo.

Dependendo da época do ano, nevascas podem ser frequentes e qualquer mudança pode complicar e muito a sua jornada.

Entramos em contato com a agência de turismo local para saber mais informações sobre o estado da trilha e se seria possível completá-la, já que nosso anfitrião do Couchsurfing não nos animou muito. Havia nevado nos dias anteriores e a temida passagem poderia ser complicada.

O QUE LEVAR

Lembre-se que você estará nas altitudes das montanhas do Quirguistão. Isso não é uma brincadeira, mas também não é um bicho de 7 cabeças.

  • Fora os alimentos já mencionados, tenha um calçado confortável e aderente ao solo. Para caminhadas longas e travessias, nunca use um calçado novo. Use um já amaciado em trilhas curtas.
  • Uma bota de escalada é o ideal.
  • Lanterna é essencial, de preferência de cabeça, pois assim as mãos ficam livres.
  • Uma faca ou canivete suíço deve estar sempre contigo.
  • Um bom saco de dormir (o meu aguentava até -33C). A Fernanda não tinha e teve que entrar dentro da mochila para tentar se aquecer um pouco.
  • Gorros, luvas, cachecóis. Como dito anteriormente, tudo vai depender da época do ano que você for.
  • Botas de trilha impermeáveis podem ajudar (eu gostaria de ter uma).
  • Tecidos respiráveis, ou você vai ficar fedendo como um gambá.
  • Meias para baixa temperatura, e mais de um par. Ficar com o pé molhado é complicado.
  • Um cobertor térmico de emergência (aqueles parecidos com papel alumínio) pode salvar uma vida. Talvez não a sua, mas a de alguém que tenha se ferrado no caminho. Seja solidário. Custa pouco e pesa quase nada.
  • Capa de chuva.
  • Bandana é multiuso. Protege do frio, do calor, da poeira.

Pegamos no caminho alguns pedaços de madeira que nos serviram de apoio, mas o ideal é alugar um material em Karakol.
Aliás, tudo pode ser alugado por lá.

VAMOS EXPLICAR DETALHE A DETALHE ENTÃO

Cidade mais próxima: Karakol.
Dificuldade: Moderada-Difícil (segundo especialistas. Nível Jedi, mas factível para nosso preparo físico).
Duração: 2 noites e 3 dias.
Melhor época: Julho-Agosto (Verão). Trouxa que somos, fizemos em Outubro.

Na noite anterior ao começo da trilha compre os suprimentos, prepare tudo e descanse bem.
Carregamos uma barraca conosco, mas no verão há a possibilidade de dormir em Yurts durante o verão.
Yurts são adaptações dos abrigos utilizados pelos nômades da Ásia Central, que podem ser vistos em outras regiões do país.

__PRIMEIRO DIA__

Karakol – Cabana Sirota

21km – 8 horas – Elevação Máxima: 2,930m

Preparados com suas mochilas e mantimentos, saiam da sua hospedagem em Karakol e peguem a Marshrutka (uma pequena van) número 101, a partir da rua Toktogul, até a última parada, que será a entrada do parque.
Alternativamente se pode tomar um taxi, que pode até levá-lo um pouco além, mas seria como trapacear, não concorda?

A entrada para o parque custou 250 som por pessoa e mais uma taxa de 150 som para a barraca. Algo em torno de 20 reais na época (Outubro 2018).

A partir de lá serão 7km por uma estrada de terra batida, com o rio à sua direita, até avistar a primeira ponte.

Faça o que a gente diz, mas não o que a gente fez. Aceitamos a carona de um simpático caminhoneiro que nos levou por pelo menos 1km.

Depois de cruzar a ponte, você adentrará a floresta e após cerca de 5 horas encontrará a segunda passagem.

Lembre-se que você cruzou a ponte, então agora o rio estará à sua esquerda.

Não tem como se perder. É só se guiar pelo rio e pela trilha. Mas em qualquer caso, tenha o Maps.ME que te mostrará que você está no caminho certo.

Cruze a segunda ponte, e se guie por sinais nas árvores ou pedras, seguindo sempre para cima.
Faltam apenas 3km para o final do primeio dia, mas não pense que será fácil.

Mensagens motivacionais são sempre bem-vindas, como:

  • Agora falta pouco.
  • O pior já passou.
  • Estamos quase lá.

Elas podem soar como mentira, mas te darão um gás extra nessa parte que é a mais íngreme desse dia, exigindo bastante das suas pernas. Não se esqueça de esporadicamente se virar para trás e admirar a beleza (fingindo que está fotografando, quando na verdade você está cansado).

Por não estarmos acostumados com a altitude, fomos parando estrategicamente para recuperar o fôlego. Nunca se esqueça que a sua saúde é o mais importante de tudo.

Em certo ponto o terreno se tornará em um morro com várias pedras. Você está perto do acampamento.
O primeiro deles estava abandonado e parece ser utilizado apenas no verão. Não ceda e siga até o segundo acampamento (que se chama Sirota Hut). Você me agradecerá no segundo dia.

Procure um local protegido do vento e coloque sua barraca. Junte galhos ao redor para fazer uma fogueira e relaxe. Você merece.

__SEGUNDO DIA__

Acampamento Cabana Sirota – Altyn-Arashan

18km – 12 horas – Elevação Máxima: 3,900m

Esse dia vai ser complicado. Já avisamos de antemão.
Algumas pessoas decidem em dividí-lo em 2 dias, mas o frio de Outubro não nos deu essa alternativa.

Caso você decida por essa opção, tente acampar nos arredores do lago de Ala-Kul.

Após admirar uma noite estreladissíma, passar frio, e tentar dormir um pouco, comece o dia logo cedo. Ele será longo e cansativo

Siga a trilha, sempre subindo e você verá marcações nas rochas indicando o lago.

Siga a trilha sempre próximo do rio e sempre para cima.
Pedras são colocadas em formações características para indicar que você está no lugar certo.

Nosso galho de madeira, além de dar um ar místico já que eu me sentia como o Gandalf, nos salvou de várias quedas, ainda mais quando a neve começou a acumular.

Pegue água suficiente, pois o próximo ponto de abastecimento será só no lago mesmo.

Você seguirá em direção à cachoeira no topo. E após passá-la, a vista será como uma recompensa.
Cansado, questionando o porquê daquilo tudo, você se deparará com um lago azul turquesa rodeado por montanhas e uma geleira.

A sua beleza salta aos olhos.
Se o tempo estivesse propício, certamente acamparíamos nas suas margens.

Recupere um pouco das energias. Encha sua garrafa no lago, caso necessário, já que daqui para frente o rio não te acompanhará por pelo menos umas 4 ou 5 horas, e siga pela margem norte do lago.

Siga pela trilha mais ao alto e não diretamente na beira do lago. Será mais fácil depois.
Essa subida é bem íngreme e te levará até a passagem, literamente do topo da montanha, para uma descida muito inclinada no outro lado.

Literalmente você chegará no topo da montanha e descerá pela sua outra face.

Preste atenção à sua respiração e batimento cardíaco, e não sinta vergonha em parar sempre que necessário, ainda mais se você não estiver acostumado à altitude.

Ao chegar ao topo da passagem, a neve começou a cair mais densa.
Às nossas costas a geleira, o lago e as montanhas.
À nossa frente uma descida extremamente íngreme cheia de neve.

Era um pouco assustador, mas nesse momento dois casais que encontramos pela trilha falaram que iríamos todos pular, e descer a montanha como se fosse um gigante escorregador, tentando usar os pedaços de madeira para controlar um pouco a velocidade.

Sem neve, ouvi relatos que seria bem mais complicado para descer se escorando, ou até escorregando nas pedras. Qualquer movimento errado, pode se tornar perigoso.

Creio que descemos algo em torno de 700 metros em questão de minutos.

O caminho a ser tomado é o vale  (conhecido como Kel’deke) que você verá no horizonte, guiando para o pequeno vilarejo de Altyn-Arashan.

Depois disso, basta você seguir o vale, sempre descendo e apreciando a paisagem.

A partir de certo ponto a demarcação da trilha ficará mais forte, haverá novos Yurts e cavalos selvagens.

A neve começa a ficar mais rara e o corpo entra no modo automático.
Estávamos um pouco atrasados, e segundo nossas previsões, não chegaríamos antes do anoitecer nas pousadas ou acampamentos em Altyn-Arashan.

Essa região é conhecida por seus banhos termais, e nossa mente apenas focava nesse ponto. Mais uma noite na barraca não parecia muito cativante.

Chegar em Altyn-Arashan se tornou uma obsessão, ainda mais quando tivemos que utilizar nossas lanternas para nos guiar. O mapa indicava pouco mais de 2km, mas havia uma confluência de rios ao nosso lado.

O rio Arashan que dá o nome ao vilarejo à nossa frente, à direita o Pico Palatka (com seus imponentes 4,730m), as estrelas surgindo no céu, mas precisávamos seguir para o vilarejo.
Atravessamos o rio algumas vezes, ora entrando nas suas gélidas águas, ora passando por pedaços de madeira estreitos que pareciam prestes a cair, ou outras formas improvisadas de ponte.

Exaustos fisicamente e mentalmente, conseguimos avistar luzes e os primeiros acampamentos. Tudo que queríamos era um bom banho quente, uma comida igualmente revigorante e uma cama.

Recomendados pelo guia da cidade, chegamos até o Eco Yurt Camp Arashan & Guest Gulnara. Aparentemente vazio, batemos na porta com um pingo de esperança e um simpático senhor nos recebeu, preparou um jantar e colocou lenha na lareira.
Ao preço de 500 som ou 7 dólares conseguimos uma cama, com jantar e café da manhã incluso, e apesar de pouco falar inglês, conseguimos alguns sorrisos sinceros do dono do estabelecimento.

Por causa do horário já tardio não experimentamos os banhos termais.
ERRO, ERRO, ERRO.
Faça isso por nós e nos diga como foi.

__TERCEIRO DIA__

Altyn-Arashan – Ak Suu

15km – 4 horas – Elevação Máxima: 2,300m

A trilha bem que poderia ter acabado no dia anterior, mas temos mais uma caminhada até Ak Suu, antes de pegar a marshrutka de volta para Karakol.

São 15km de descida pelo vale, sempre com o rio ao nosso lado, em uma paisagem de tirar o fôlego.

Não há dificuldade nessa parte, então faça em um ritmo gostoso, apreciando os últimos momentos dessa trilha.

O Quirguistão é um país de uma beleza natural intensa que poucas pessoas conhecem.

Para os amantes de uma boa aventura, elas estão disponíveis em vários picos, rios e vales.

Lembre-se sempre de tomar cuidado e não ultrapassar seu limite. Cheque a previsão do tempo, tenha um mapa sempre a postos, e verifique o seu equipamente de camping (alugue algo se necessário).

Aclimatação é essencial e como tínhamos pouco tempo no país, ignoramos esse fato, fazendo com que tivéssemos que parar muito mais que o desejado.

Acima de tudo, não deixe vestígios.

SUJOU, LEVE SEU LIXO DE VOLTA.

Não importa por quantos quilômetros você tenha que carregar os restos de algo que consumiu. Não deixe na natureza.

Chegando em Ak Suu, pegue a marshrutka 350 de volta para Karakol por 15 som ($0.20) e descanse.
Você venceu mais essa.

Coma um Ashlan-Fu (uma sopa Dungan com macarrão misturado em um molho de chili e ervas) no mercadão local e torça para as dores musculares não serem tão intensas.

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One thought on “A TRILHA MAIS DIFÍCIL DAS NOSSAS VIDAS (ALA-KUL)

  • Maurielle Felix da Silva janeiro 23, 2019 at 15:39 Reply

    Lindas paisagens e inspirador relato. Parabéns aos irmãos! 🙂

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