Coelhinho da Páscoa

By campodegelo

Era uma vez um jovem e vermelho garoto que resolveu viajar o mundo.

Ele havia trabalhado durante 11 meses na Índia e devido a esse tempo por lá recebeu da empresa um bilhete de retorno para sua terra natal, podendo escolher a companhia aérea e o trajeto.

Foi assim que ele foi parar na Turquia e consequentemente em Israel.

Depois de alguns dias por Istanbul, Izmir e Pamukkale, ele resolveu partir para a terra prometida.

Ao chegar no aeroporto em Tel Aviv, ele foi abordado por um policial com uma cara de carranca e poucos amigos. Junto com ele, um questionário incessante foi aplicado.

“O seu nome não é brasileiro”, vociferou o guarda.
É sim. Me chamo Guilherme”, respondeu o garoto.
“Não. O seu sobrenome. Eisfeld não é brasileiro.”
“É alemão.”
“Por quê?”
“Meu bisavô era alemão.”
“Por quê?”
“Porque ele nasceu na Alemanha.”
“Espertinho! Eu quero saber o motivo da ida ao Brasil.”
“Veja bem, imigração. O povo estava numa situação ruim e partiu para o Brasil e a América em geral. Mas relaxe, ele foi antes das grandes guerras.”

Estereótipos à parte, ele queria afirmar que o seu bisavô não havia maltratado nenhum judeu, mas achou que a informação ficaria melhor somente na sua mente.


“Por que você foi 3 vezes para a Malásia? Você sabia que existem terroristas por lá?”
“Na verdade visitar este país somente uma vez, nas demais foram apenas vôos de conexão.”
“Você não possui uma bomba contigo, né?”

E a vontade de responder sim para a questão acima?

Mais algumas perguntas se passaram, até que uma revelação surpreendeu o rapaz.

“Você viajando sozinho?”
Sim.”
“É religioso?”
“Não.”
“Então por que raios veio a Israel durante a Páscoa?”

Sem uma resposta clara para a última pergunta e um pouco embasbacado, ele foi conduzido até uma sala, onde outras pessoas passavam pela mesma esperar e incerteza.

Alguns minutos depois um chamado e um desejo: Bem-vindo à Israel!

Tel Aviv possui uma orla interessante, e em um dos cantos a antiga Old Jaffa, com seu antigo porto e prédios históricos.

Mas era em Jerusalém que o bicho iria pegar.

A hospedagem foi em um lugar mágico. Localizado no centro da cidade murada, e com um colchão no meio de outros 54, foi assim mesmo no terraço de um prédio, sem teto e iluminado pelas estrelas, que ele dormiu durante algumas noites. Ao acordar a cidade antiga lhe desejava um bom dia.

A movimentação religiosa era intensa, fosse do lado cristão ou judaico.

Muitos locais remetiam a famosos nomes bíblicos, como os Monte Sião, Monte das Oliveiras ou a via dolorosa. Pessoas caminhavam e encenações da crucificação de Cristo aconteciam pelas ruas com grande devoção.

Também há grandes multidões ao redor do Muro das Lamentações, ou também chamado Muro Ocidental, uma antiga parede de pedra calcária na Cidade Antiga de Jerusalém. É considerado sagrado devido a ser a última parte remanescente do Templo que ficava no topo do Monte Moriá em Jerusalém.

No domingo de páscoa em si, somente grupos religiosos poderiam ficar nos arredores da cidade antiga ou andar livremente com seus devidos cartões de identificação.

Sem problemas, toda aquela demonstração religiosa já estava exacerbada para a mente do menino, então ele tirou uma folga disso tudo e rumou para o Mar Morto.

Um ônibus local passando por áreas desérticas o trouxe até esse lago de água salgada no Oriente Médio. Seu nome é devido à grande quantidade de sal nele contida, dez vezes superior à dos demais oceanos, explicando assim a escassez de vida.

Devida abundância de sal faz com que você não afunde, mas o que ninguém explicou é que pelo mesmo motivo não era recomendado mergulhar, pois os olhos arderiam como se em chamas.

Sob forte sol o espertalhão correu até a água e nem teve tempo de parar aos gritos dos seus novos amigos de albergue. Mergulho seguidos de urros, berros e xingamentos na língua materna, e a vontade de arrancar os glóbulos oculares.

Era impossível abrí-los ou ver algo adiante. Tateando o solo ele conseguiu chegar até um chuveiro e o sofrimento começou a passar aos poucos.

Recuperado era a hora de provar a lama escura com fins medicinais que existia nessa praia. Se faz bem não sei, mas com certeza foi mais reconfortante que o mergulho.

Uma região muito bonita, rica com muita história, mas que vive em conflito com seus vizinhos, e que eu não gostaria de entrar nos méritos, desde a sua fundação até o estado atual.

A única coisa que posso torcer é por mais tolerância, respeito e ajuda de todas as partes.

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