Como elaborar um Projeto

By campodegelo

Era uma tarde fria do Outono berlinense em 2017 quando meus nobres amigos poloneses, que me introduziram à carona, fizeram uma proposta tentadora (ou teria sido eu que me convidei à ela?): ir para o Irã no próximo Verão.

Não necessito muitos argumentos para ser convencido a viajar, então aceitei na hora, nem mesmo sabendo se realmente poderia.

Desceríamos da Polônia rumo à Turquia, para depois adentrar no país que é o terror dos presidentes norte americanos, mas que também é reconhecido pela sua hospitalidade e alegria.

Viajar sozinho não significa estar sozinho

Meus companheiros de viagem não possuíam muito tempo livre e retornariam mais cedo do que eu gostaria.

Como não vejo problema algum e aprecio viajar sozinho, me decidi por prolongar a jornada. Do Irã eu encontraria uma rota até o Uzbequistão, onde visitaria outro amigo meu.

Alguns me perguntam como tenho tantos amigos nas mais diversas localidades do globo terrestre. Vejam bem, são coisas que a face cosmopolita de cidades como Berlim, Mumbai, Seul e Bangkok me ofereceram.

Seja simpático com todos ao seu redor, sem esperar algo em troca, que um convite pode aparecer quando se menos espera.

O melhor plano é na verdade não ter planos

Para variar o planejamento não se concretizou. Já repararam como planos quase nunca saem como deveriam ser?

Meus amigos tinham que começar a jornada já em Julho e eu estaria livre só a partir de Agosto. Era tarde demais, tanto para essa viagem como para não viajar mais.

Resolvi ir comigo mesmo, porém por uma rota diferente.

Abri o mapa e comecei a ver as possibilidades. O forte calor do verão me fez descartar o Irã. O caminho seria por cima. Pelo Leste Europeu.

Minha irmã que não é boba nem nada se escalou no que se tornou mais do que uma peregrinação pelo mundo, e que gostamos de chamar de projeto.

Iríamos não simplesmente passar por lugares, experimentar novos sabores e aromas, queríamos provar que podemos conquistar nossos sonhos e mostrar como o mundo realmente é, fora da bolha turística.

Um projeto por definição tem que ter um início e um fim,  e voltar ao lugar de origem não me parecia um bom término para ele. Comecei a estudar possibilidades e desloquei o olhar para o Leste. Foi quando avistei a China e sua mítica capital: Pequim (ou Beijing em inglês).

De Berlin à Beijing

Chegava a rimar de tão bom que era e assim em poucos minutos tomei minha decisão, sem nenhum embasamento ou razão para a mesma.

Tomado pela euforia da ideia e sem autocontrole da minha impulsividade, comentei com alguns amigos o que eu pretendia fazer. Entre as diversas reações, um deles que trabalha em um jornal me disse que isso daria notícia, que o povo gostaria de ler sobre, e que comunicaria o editorial de viagem e turismo. Não dei muita bola e continuei o meu dia a dia, ainda sem muita certeza se o plano realmente se concretizaria, até que um jornalista me contactou.

Perguntas de lá, respostas sinceras daqui, e consegui descrever o que eu nem mesmo estava certo. Minha viagem seria publicada no periódico de maior vendagem do estado onde nasci. Eu não tinha mais escolha agora.

Foi assim, fruto de uma ideia maluca, com ajuda de amigos que tudo aconteceu, ou melhor dizendo, que tudo iria acontecer.

Eu somente precisava finalizar meus estudos de negócios internacionais e as consequentes aulas para melhorar meu pífio conhecimento da gramática alemã, para assim partir sem pendências.

Os últimos meses serviram como um laboratório. Acampei em Portugal, e na região entre a Alemanha e a República Tcheca, tomando nota do que estava faltando.

Não sou perfeccionista, mas também não gostaria de passar por problemas básicos que poderiam ser facilmente evitados.

Amizade é tudo

Na última noite convidei alguns amigos para um jantar, coisa básica mas necessária. O apoio dos outros é o meu combustível favorito. Cozinhamos, eles rasparam minha cabeça (fazendo algumas gracinhas durante) e nos divertimos. Discutimos as expectativas, os anseios e os temores.

Quando o último deles saiu do apartamento onde vivo em Berlim e fechei a porta, me toquei do que estava acontecendo. O silêncio me tomou e por um breve momento se misturou a uma lágrima. Não de tristeza, mas de compadecimento. Fui tomado por um sentimento bom, de ser amado, de ter pessoas boas por perto que se importavam comigo, mas ao mesmo tempo eu iria novamente deixá-las por um tempo indeterminado.

Fui para frente do espelho, enxuguei as lágrimas, me dei um tapa na cara, me recompus e fui dormir, afinal de contas no dia seguinte eu sairia para a China, sem data de retorno, sem rotas, sem programação definida. Apenas com a convicção de que daria tudo certo.

Foi provavelmente minha melhor noite de sono dos últimos meses.

One thought on “Como elaborar um Projeto

  • Celso Luiz Macionk setembro 15, 2018 at 07:55 Reply

    Muito bom

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