Filhos da Imigração

By campodegelo

Era um simples almoço de domingo em família.
Linguicinha no prato, carne na grelha, cerveja transbordando do copo, e aqueles papos estranhos sobre política, viagens e futebol.
Eu era o convidado ali, e pedidos enfatizaram para que eu não me envolvesse em divergências políticas.

Sabe como é, né?
Esse período eleitoral foi conturbado. Famílias e amizades foram dizimadas, diferenças foram trazidas à tona, mas não para uma debate sadio e construtivo, e sim para um discurso de ódio e preconceitos.

Prometi me comportar.

Entre uma garfada e outra, eu acabava por engolir opiniões estranhas, mas as empurrava para dentro com goles de cerveja de milho barata.
Tudo corria bem, pelo menos para quem falava. Dentro de mim reinava um embate entre o bom senso, a empatia e a promessa feita.
Eu não poderia decepcioná-los, mas mais do que tudo, eu sabia que não conseguiria mudá-los, nem entendê-los.

Estava quase saindo ileso, quando uma pergunta me foi direcionada:

– Como você morou bastante tempo na Alemanha, você conviveu com a “invasão” dos refugiados lá, certo? O que os alemães pensam disso? Eles trabalham, constróem tudo, dão um duro danado, e de repente chega um povo do estrangeiro e ganha tudo de mão beijada.

Respirei fundo.
A pergunta já vinha com uma resposta, e ela era falha e equivocada.
Pensei em olhar para os lados.
Cogitei me desculpar antes mesmo de quebrar a promessa, porém nunca passou pela minha cabeça ficar quieto.

Calmamente revirei as entranhas da história.
Permitam apresentar-me novamente.
Meu nome é Guilherme Eisfeld. Nascido no Brasil, em Curitiba, mas como você mesmo percebeu, com um sobrenome não muito trivial.
Eisfeld. “Campo de Gelo” em português.
Nome de origem germânica.
Nome também de um pequeno vilarejo no centro da Alemanha.
Nome de uma família que imigrou para o Brasil no começo do século XX.

Antes que você crie teorias da conspiração, eu já digo: Não!
Eles não vieram decorrentes das atrocidades das Guerras Mundiais.
Eles eram apenas uns “fodidos”.
Obviamente “fodidos”.
Quem sairia do bem bom do lar, para navegar em uma embarcação insalubre, rumando para uma terra totalmente desconhecida, com todos os pertences e familiares, se não fosse um “fodido”?

A fome, as doenças, a falta de oportunidades, as consequentes guerras e destruição. São inúmeras as razões para um êxodo massivo, entretanto, sem medo de errar eu afirmo: todas elas são ruins.
Nenhuma migração se dá, se as condições são favoráveis.
E foi assim que quebrei minha promessa e a cara daquela pessoa que ficou sem fala

– Somos todos parentes de imigrantes “fodidos”, tio!

This entry was posted in Outro Mundo

2 thoughts on “Filhos da Imigração

  • Karla Pontes abril 8, 2019 at 00:37 Reply

    Acho um absurdo a questão das fronteiras.
    Vivemos no mesmo planeta, eis nossa fronteira.

    • campodegelo abril 8, 2019 at 10:18 Reply

      Parafraseando John Lennon: Imagine there’s no borders, it’s easy if you try 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *