E eis que a aventura na Tailândia chegou na sua metade, e com ela veio a necessidade da extensão do visto. Após 3 meses de boa comida, calor e sorrisos, eu havia 2 possibilidades:

  1. Ir ao departamento de imigração, esperar em torno de 6 a 7 horas, pagar 2.000 bahts (cerca de 200 reais), e obter o carimbo precioso;
  2. Cruzar a fronteira para outro país e no retorno ser agraciado com mais 3 meses em solo tailandês.

Se você já acompanhou a minha jornada anteriormente, sabe muito bem a escolha que tomei, o único problema era para qual país rumar.

Ao sul, Malásia. À oeste, Myanmar. À leste, Cambodia. Ao norte, Laos. Ao aeroporto qualquer destino imaginável (e pagável).

Uma simples olhada pelas passagens aéreas mais baratas saindo de Bangkok me revelou o nome Udon Thani, uma cidade localizada na província de mesmo nome, no nordeste tailandês, e apenas a 50km da fronteira com o Laos.

Perfeito. A passagem sairia pela metade do preço da renovação do visto, e eu poderia respirar ares (um pouco) mais puros.

Um adendo: eu amo viajar, mas a cada trajeto gosto cada vez menos de aviões.  Chegar antecipadamente no aeroporto, nao poder entrar nem com água, passar por vistorias, mais espera e  filas. Como a passagem era barata, e me recuso a pagar qualquer taxa extra, não pude escolher o assento. Resultado: ultima fileira da aeronave, com direito a muito sacolejo e turbulência.

Nota mental: da próxima vez siga na carona mesmo.

Mas ela estava planejada, não pense que não.

Uma noite em Udon Thani e no outro dia, debaixo de chuva forte, era hora de espantar a preguiça e esticar o dedo até o país comunista vizinho. Comunista talvez por apresentar um partido único, mas não necessariamente as características sociais de tal regime. Mesmo assim as bandeiras vermelhas com a foice e o martelo dividem espaço junto com as bandeiras deste país pobre, de predominância budista, e com fortes influências francesas (devido ao período colonial até os anos 50).

Voltando à Tailândia.

Depois de uma caminhada de 5km debaixo de chuva forte e muitos olhares curiosos, encontrei um local fora da cidade onde eu poderia tentar a minha sorte. Comprovando a fama da região, cerca de 20 minutos depois eu estava sendo levado por duas primas e uma criança pequena, que seguiam para Nong Khai, cidade na fronteira com o Laos.

Facilidade, praticidade, sorrisos e recomendações do que fazer pelos arredores.

Na alfandega nao houve problema algum, somente algumas abordagens de taxistas ou motoristas de tuk tuk, que queriam me levar até Vientiane, a capital, por preços exorbitantes. Anestesiado que sou, recusei polidamente, e segui meus passos pela estrada. Alguns metros em frente, uma jovem laociana, sentada na sua motocicleta e trajando uma máscara anti poluicao, me aborda com um caloroso “Sa-bai-Dee (ສະບາຍດີ)”.

O idioma tinha mudado, e esse era o “Oi” local.

Ela me disse que um ônibus para Vientiane chegaria em breve, e que custaria apenas 6.000 Kip.

Seis mil dinheiros. De quanto ela estava falando? Isso parecia muito, mas no final das contas era apenas 2 reais.

Ela se propôs a esperar comigo e trocamos algumas figurinhas enquanto isso.

Brasil, remetendo a futebol. Laos, com seus monges e cachoeiras.

Obrigado daqui, Khorp Jai (ຂອບໃຈ) de lá.

Adeus daqui, La-khon (ລາກ່ອນ) de lá.

E a primeira impressão que tive do país número 69 do Campo De Gelo foi a melhor possível.

A maior cidade do Laos é definitivamente mais calma que as capitais de países vizinhos, com uma atmosfera mais relaxante, grandes avenidas, um arco do triunfo, templos, mercados, uma orla à beira do rio Mekong e um parque com formas budistas diferentes e até um pouco assombrosas.

Vale mencionar que a Beerlao, cerveja produzida localmente, ganhou meu paladar como a melhor da região.

Me espantou um pouco a horda de turistas pelas ruas e albergues, que em certos casos ofereciam bebidas gratuitamente para impulsionar esse tipo de turismo. Isso me levou a desistir de seguir para Vang Vieng, cidade mais ao norte, conhecida pelas atividades aquáticas com bóias, shakes de drogas duvidosas, álcool e estrangeiros que não dão a mínima pelo país, ou região que estão.

Outras localidades que me chamavam a atenção neste país eram mais distantes, e como o tempo era curto, e a vontade era por caronas, decidi por retornar à Tailândia, e visitar o Lago das Flores de Lótus (ou como me ensinaram: Talay Bua Dang).

Vale a pena mencionar o lugar em que me hospedei em Udon Thani: Oldie and Sleepy Hostel.

Não estou sendo pago por isso, nem nada, mas a simpatia do dono e seus amigos, aliado à almoços juntos, a um filme exibido e uma banda de jazz no terraço, me conquistaram.

Às 5 da manhã tomei um ônibus para esse lago, cerca de 30km da cidade, pois queria presenciar o nascer do sol. Fui deixado à beira da estrada, e de lá um simpático senhor me levou, na sua motocicleta, até o ponto desejado.

O ar frio, a neblina e o cansaço da noite mal dormida não me abateram.

Após entrar no pequeno barco que me guiou pela águas límpidas, o sol começou a distribuir o seu calor e as suas cores. A sensação de paz, o canto dos pássaros, as flores que me rodeavam, o sorridente barqueiro e a certeza de que eu estava em um dos lugares mais bonitos que já vi.

Entre Dezembro e Fevereiro as flores de lótus exibem suas cores rosa no horizonte, e mesmo estando no último mês possível para vê-las (devido às temperaturas que tendem a subir), não pude deixar de me maravilhar.

Palavras e fotografias não são suficientes para descrever esse local, e se elas faltam neste momento, se tornam necessárias para detalhar o encontro que aconteceu a seguir.

Goldie, uma brasileira, paulistana, viajante e sorridente, com quem eu já havia trocado dicas de viagem pela Internet, mas nunca visto pessoalmente, terminava de sair de um barco no mesmo momento que eu.

Dizem que os opostos se atraem, mas ultimamente o que mais tenho atraído são pessoas com pensamentos bons, querendo mudanças e melhorias.

Querendo algo mais sustentável, digno, humano e útil. Com uma história parecida, nos identificamos no passado de trabalhos sem sentido, presente de viagens, e futuro de belos projetos.

Acredite em karma ou não, mas as boas ações que propagamos renderão coisas maravilhosas em algum ponto da vida.

E com esse pensamento, conseguimos mais uma carona, de volta para o centro de Udon Thani.

Mente fresca, corpo relaxado, sorrisos exauridos e a certeza de que o futuro pertence a quem prega coisas boas.

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2 thoughts on “Flores Comunistas

  • Ana Delavigne Março 6, 2018 at 14:59 Reply

    As fotos podem não fazer jus à beleza do lugar, mas estimulam a curiosidade e alimentam o desejo de fazer as malas!

    • campodegelo Março 6, 2018 at 23:55 Reply

      Foi um dos lugares mais mágicos que passei.
      Isso que a temporada das flores já estava por terminar <3

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