Jogando a Merda no Ventilador

By campodegelo

Nada como uma bela cagada no conforto da privada própria.
Uma ergonomia já conhecida, um ambiente hospitaleiro, a limpeza garantida.
Quando em casa, o tempo será seu aliado, os recordes daquele jogo no celular serão constantemente batidos, e o papel higiênico provavelmente não será uma lixa para o seu orifício.

Tantas são as regalias, que certas pessoas simplesmente tem um bloqueio ao sair de casa.
A necessidade pode até surgir, mas o orgulho de não encostar o traseiro em locais desconhecidos é maior.

Viajando, certos valores precisam ser repensados, já que não podemos carregar nosso idolatrado trono conosco.

Há também outros fatores interferindo nesse chamado da natureza.
Diferentes fusos vão desregular o seu relógio intestinal.
A alimentação também participará intensamente desse jogo, onde nem sempre somos vencedores.

Se sou o Highlander da comida barata de rua, se tenho um estômago de avestruz, ou simplesmente sorte, nunca saberei.
Porém nunca tive um grave infortúnio perante o vaso sanitário.
Não quero dizer com isso que tudo são flores (os odores não me deixam mentir), mas ainda não fui abatido por uma séria intoxicação até o dia que vos escrevo.

Coincidência, destino, uma tara obscura, não sei dizer, mas dificilmente perdôo um aeroporto.
Nossa relação já é antiga e agora faz parte da rotina.
Um avião, uma refeição, o pouso, e um cagão, quase sempre nessa ordem.
Um adendo: nunca pintei a porcelana em aeronaves, e também desconheço a razão para tal. Será que a lenda de ser sugado para fora ao disparar a descarga amedronta meu sistema, a ponto de inibir qualquer vontade?

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Muitos são os apuros, diversas as histórias, infinitos os alívios, mas alguns momentos são mais marcantes e constrangedores.

No Sudeste Asiático, Índia e arredores, recomenda-se um bom preparo físico, especialmente dando uma reforçada no exercício de agachamento, pois é nessa posição que você deverá concentrar sua mira, para acertar o pequeno buraco no chão.
É isso mesmo, não há assentos, e muito menos papel por lá.

Um sábio indiano, em um belo dia me confrontou com os dizeres: “Se você pisa na merda, você lava seus pés. Caso você toque no excremento, terá suas mãos lavadas com água e sabão. Então por que raios você só limpa seu cu com papel?”.
Serve para reflexão, ainda mais quando dizem que não haveria oferta suficiente de papel no mundo, caso os indianos resolvam aposentar a água, e a mão esquerda para devida limpeza.

E era apenas a minha segunda semana vivendo em terras germânicas quando fui agraciado com uma das situações mais inusitadas.

Depois da Índia, eu achava que nada poderia me surpreender mais, e com esse espírito degustei um Rostbratwurst em uma das principais praças de Berlin, a Alexanderplatz.
A combinação da suavidade da linguiça de porco com a crocância do pão francês, e o amargo da mostarda escura aguçaram minhas papilas gustativas e algo mais.

Com as manhãs dedicadas a buscar apartamentos, as tardes eram sempre livres, e normalmente reservadas ao desbravamento a pé da nova morada.

Da praça onde eu me encontrava até o albergue eram uns bons 8 km.
Uma agradável caminhada naquele dia quente de fim de primavera européia.

Para quem conhece a capital alemã, uma orientação especial: tudo começou após passar pelo Portal de Brandemburgo. Tal qual Napoleão, um exército bradou seu grito e não parecia haver para onde fugir.

São nesses momentos de pressão que nossa criatividade vem à tona.
Cada movimento nas minhas entranhas me remetia a um pensamento diferente.
Um restaurante, uma loja, ou um Starbucks (oferecendo as únicas coisas boas que eles provém, banheiro e internet), qualquer lugar serviria.
O problema era que eu me encontrava no meio de um parque (Tiergarten) e não conhecia nada ao redor.

Calma! Respire fundo.
Faltam menos de 2 km. Tudo vai correr bem.

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Caralho! Não aguento. Preciso, necessito, tenho que achar um banheiro!

Calma! Respire de novo. Tudo vai dar certo.

Minha barriga parecia uma música do Pink Floyd, alternando momentos de silêncio e tranquilidade, com solos intensos de guitarra.
E o refrão estava chegando.

Eu precisava agir rapidamente. Não estava aguentando mais, até que avistei um arbusto.
Seria lá mesmo.

Os Deuses da Vergonha Alheia, zelando por mim, materializaram uma escola atrás da moita e para lá corri alucinado.
Uma senhora, responsável pela limpeza, e de quem não recordo outros detalhes, apontou o segundo andar após minhas bufadas de “Toilet, please”.

Malditas escadas, vocês não vão me vencer!

No piso superior um corredor imenso se abre para mim, e obviamente o banheiro masculino estava no fim dele.

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Neste momento peço perdão.
Eu pequei, admito, mas forças (muito) maiores tomaram conta de mim.

Na porta ao meu lado direito o símbolo de um boneco feminino me proibia e ao mesmo tempo me convidava a entrar.
Desculpem-me novamente, mulheres.

Incrível como todo esse raciocínio e consequente ação ocorreu em uma fração de segundos.

Corre, abre a porta da cabine, deixa a mochila no chão, e….

Nossa, que sensação sublime. Não há coisa melhor que essa.

Esqueçam sexo, comida, viagens, ou um gol do seu time na final do campeonato, o auge da vida é uma senhora cagada, quando a coisa aperta mesmo.

Suando frio, mas respirando aliviado me preparo para sair, e é quando percebo a “cagada” que fiz.

Não querendo encostar no assento, tudo aconteceu na surdina.

Ao jogar minha mochila ao chão, me esqueci completamente da jaqueta que carregava pendurada. Observando um tecido preto na privada, compreendi o que se passou.

Fiz tudo o que tinha (e o que não tinha também) em cima da minha casaca favorita, que no fervor do momento caiu onde não deveria.

Embasbacado, só me restava uma coisa: sorrir.

Juntei tudo e coloquei no lixo.

Não havia muito clima para retornar ao albergue com tão asqueroso conjunto, e sabe mais o que?
Eu colocaria todo meu guarda roupa à disposição perante uma situação similar.

Esteja preparado para todos os momentos, bons e ruins.
Não se prive de comer algo por receio do futuro. Ele pode ser resolvido na porta logo ao seu lado.
Agora deixa eu me limpar, que creio que já terminei (o texto).

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