Sara se passaria por uma brasileira.
Morena, estatura média, olhos de um tom castanho esverdeado.
Longas madeixas escuras que esvoaçavam ao cair do hijab.

Estamos no Irã, onde a Revolução Islâmica de 1979 transformou muitos costumes.
O local preciso é Bandar Abbas, litoral sul do país, Golfo Pérsico, também conhecido como Golfo Árabe, dependendo apenas dos seus interesses ou qual bandeira você defende.

Sara não concordava com o sistema.

Se sentia aprisionada por um pedaço de pano. Se sentia sufocada por uma sociedade que exige seu casamento, sua prole, seus cuidados.Queria mais do que isso. Queria a sua independência. Pulsava por viver.
Saiu de casa com consenso, mas ponderação.

Começou uma nova fase em outro lugar.

Morava sozinha em um pequeno apartamento afastado do porto. Tinha a sua residência, as suas regras.

Ensinava árabe como profissão. Aceitava viajantes debaixo do seu teto por satisfação.

Não sei se vocês entenderam, mas muitos tabus são quebrados quando a Sara, uma mulher solteira, na casa dos 30 anos, me recebia com um sorriso no rosto e curiosidade no olhar.

Conversamos sobre lugares. Discutimos idiomas. Cozinhamos juntos.

Então resolvi lavar a louça.
Ela começou a rir. A gargalhar. Soluços na iminência.
Quase às lágrimas, ela me pergunta:

-Você sabe lavar a louça?

Fiquei pensativo. 
O que você responde nessa hora?
Acho que sim, certo?
Ninguém nunca avaliou o meu desempenho neste quesito, mas creio que sei.

-É que eu nunca vi um homem lavando a louça na minha vida.

Proporções e ambientes à parte, essa Sara bem que poderia ser brasileira mesmo.

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