A Saga de um Copo no Psicodália

By campodegelo

Acordei ao relento em mais um dia de carnaval.
Molhado do orvalho matutino com restos encravados da noite passada.
Fui abandonado novamente.
Depois de tudo o que fiz, de tanto que aguentei.

Me valorizaram, tenho que admitir. Antes eu custava meros 5 reais e agora me colocam a tarjeta de 10ão. Inflação psicodélica.

Aos primeiros raios de Sol os zíperes das barracas começam a se abrir, é como o som do meu despertador.
Alguém me encontra, passa uma água para me limpar e joga dentro de mim algum líquido estranho. Café, água ou suco de laranja.
Ainda está cedo mas alguns dos meus mais bravos donos já ousam uma cervejinha.

Coitados sejam meus amigos descartáveis, que ao término das suas funções são jogados em qualquer canto, e pisoteados formam um cemitério de plástico.
Descansem em paz, amigos, mas vocês já são coisa do passado.

Passou a hora do almoço e é derrocada abaixo.
Me colocam vodka, gin, ou qualquer coisa mais forte. Será mais um dia daqueles, em que pendurado no pescoço de alguém tentarei voltar para casa são e salvo.

Passo por palcos diferentes, teatros, oficinas, cinema, estação Kombi, lago, me penduram até no banheiro seco.
Há quem diga que até posso chegar à uma cachoeira.
Me jogam no chão, me brindam com meus mais afortunados irmãos de gole.
Se eu absorvesse tudo o que por mim passa, não me aguentaria em pé.

Se por acaso o meu dono ou dona trombar com alguém, não tem problema algum. Eles vão simplesmente sorrir, se desculpar, quiçá até se abracem.
O maior risco que sofro (fora ser esquecido ou perdido) é receber uma chuva de “bom dia”, “boa tarde”, ou “boa noite”, junto com uma prosa ao ir ao banheiro.

Me colocam para cima quando o timbre da Elza reverbera. Me jogam para o alto quando os piratas sacodem o Palco Lunar. Caio para dançar grudado no corpo do meu dono nos sons mais exóticos e inusitados.

Por 5 dias fui usado, abusado, menosprezado e talvez até trocado.
Por 5 dias convivi com uma bolha de pessoas do bem, que mesmo me deixando de lado, pensam além do que a mídia oferece.
Por 5 dias vivenciei uma utopia que deve se expandir para além da chacára por onde estive.

Ser um copo de Psicodália não é fácil, mas é gratificante. Ainda mais ao saber que ano que vem meu filho mais novo com a inscrição de 2020 vai poder levar meu legado adiante.

Fotografia de Carol Miyuki

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