Réveillon em Kanchanaburi

By campodegelo

Festas de fim de ano chegando, época de reunir família e amigos, comer exageradamente, escrever textões com reflexões e uma promessa de melhoria no futuro.

Fugindo um pouco do convencional, e cansado das hordas de turistas estrangeiros, resolvi por sair de Bangkok para brindar a entrada do ano de 2018.

Como eu planejava o transporte com caronas, o destino não poderia ser muito distante. Ilhas e praias estavam fora de cogitação, e então surgiu o nome de Kanchanaburi como sugestão.

Rodeada de montanhas, oferecendo trilhas, cachoeiras, e um bocado de história, essa cidade localizada no Oeste tailandês foi a escolhida.

Apenas 150 km separam Bangkok da cidade que é mais conhecida pela trágica “Estrada de Ferro da Morte”, que foi construída por prisioneiros de guerra sob controle das Forças Japonesas durante a Segunda Guerra Mundial. Até chegar por lá eu nunca tinha imaginado muito a guerra fora do território Europeu ou Japonês. Pois bem, após conquistar a antiga Birmânia, os nipônicos planejaram a estrada de ferro, com o objetivo de acelerar o transporte de soldados e bens entre a Tailândia e Birmânia (atual Myanmar).

O conceituado livro, e consequente filme (vencedor de 7 Oscars), “A ponte do rio Kwai” retrata a grave situação por lá vivida, onde diz-se que cerca de 90.000 trabalhadores asiáticos e 16.000 prisioneiros de guerra aliados (britânicos, australianos, holandeses e estadunidenses em sua maioria) morreram como resultado direto do projeto. A ponte ainda está por lá, e junto com museus e cemitérios, hoje é um dos pontos turísticos da região.

Como toda cidade que se preze na Tailândia, um mercado noturno não poderia faltar, mas cheguei a espantar-me com os preços por ali praticados.

Pra quem não conhece o Pad Thai, eis a descrição: macarrão feito de arroz,  ovos, pimenta chilli, tofu, frango, porco ou camarão, cebolinha, amendoim, broto de feijão, e um delicioso molho feito a base de tamarindo, molho de peixe, açúcar de palmeira e algumas outras especiarias. Um prato dessa orgia gastronômica custava, na feirinha,  apenas 15 bahts (algo em torno de R$1,50). Junte isso com os mais diversos espetinhos de lula, frango, salsichas fortemente condimentadas, doce a base de coco ou banana, e temos um cardápio variado e muito barato.

À beira do rio Kwai muitos templos e construções chinesas cativam pela berrantes cores e sensação de paz. Como disse uma turista americana ao passar por lá: “Acho que estamos na Disney dos templos”.

Cerca de 50 km da cidade localiza-se o Parque Nacional de Erawan, que oferece algumas das cachoeiras mais bonitas da região. Pelo menos quando não estão cheias de gente fazendo seus piqueniques. Uma trilha de 2 km liga as 7 principais cachoeiras, que com suas águas azuis e límpidas, cheias de peixes, oferece uma boa um bom passeio de um dia.

O plano inicial para a virada do ano era tentar obter uma experiência mais local, longe dos turistas gringos, mas nem em meus melhores sonhos imaginei o que estava prestes a acontecer. Sendo um dos poucos estrangeiros hospedados no No. 25 Café & Hostel (juro que nao estou ganhando nada para falar deles aqui), fui convidado a me juntar aos amigos de Titaya, a simpática dona do estabelecimento, para a noite de Réveillon.

Churrasco aqui, cervejas acolá, beer pong de lambuja, troca de presentes e muitos fogos de artifício. Eu, um brasileiro, no meio de 15 amigos tailandeses desde a época de colégio. Me senti feliz, abracei, bebi, rimos juntos. Tenho muito a agradecer à todos meus novos amigos de Kanchanaburi.

ชน [chon] à todos voces (uma forma de brindar em tailandes).

O dia seguinte prometia duas coisas: a ressaca e o retorno para Bangkok!

Ônibus e trens são frequentes entre as duas cidades, e o valor é justo, apenas 100 bahts (10 reais) para um viagem entre 3 e 4 horas, então por que raios eu iria para a beira da estrada pedir uma carona?

Se você é novo por aqui, tudo bem, mas se já se deleitou com alguns dos meus relatos e ainda não entende essa prática, vou tentar explicar novamente.

Ao viajar de carona você transforma uma viagem chata e desgastante em uma conversa, em um ato de bondade. É  muito mais do que uma forma gratuita de se mover. Alguém que não te conhece, em um mundo de dificuldades e criminalidade, resolve parar e te ajudar sem pedir nada em troca. Genuíno, sincero, amável. Isso não se compra com nenhum dinheiro do mundo.

Sendo assim escrevi Bangkok na parte da frente do cartaz e um “Happy New Year” no verso. Com um sol de 32 graus, a boca mais seca que o deserto do Saara, e determinação comecei a caminhar para a estrada.

Um atalho me levou até uma viela sem saída, onde fui cercado por uma gangue de cachorros de rua. Tentei avançar, mas o líder da matilha se impôs e me encarou. A cada passo que eu dava, aumentava a quantidade de latidos. Eles começaram a avançar também, e não percebi medo algum nos seus olhares. Eles não iriam recuar.

Me detive e observei meus arredores. Ninguém para me acolher ou vociferar palavras em tailandês para espantar os peludos sarnentos. Dei um passo para trás, nunca virando as costas para eles. Eu estava no controle, não os nada amistosos caninos.

Neste momento eles já estavam ao alcance das minhas pernas, então acelerei o ritmo e calmamente fui voltando, até que eles se mantiveram afastados, se esguelando com rosnadas e latidos.

A salvo tive que contornar aquele território inóspito, para enfim estar em uma linha reta até a estrada. Mais alguns quilômetros e cheguei ao local desejado, com automóveis passando em alta velocidade e espalhando poeira pelos ares.

Suado, sujo e cansado, parei para descansar um pouco sob uma sombra, e eis que um dos maiores temores na Ásia aparece. As carnes, pimentas e cervejas da noite anterior resolveram que queriam sair de dentro de mim, e nenhum lugar apropriado parecia estar por perto. Focado para não fazer estragos rumei até uma mercearia local, onde me apontaram um banheiro em um corredor sombrio. Munido de lenços de papel entrei como um raio no aposento, e foi apenas o tempo de me desvencilhar do mochilão e desviar de algumas baratas que por lá se encontravam para finalmente libertar o ser maligno que me dominava.

Como vocês podem perceber (e felizmente não sentir) viagens nem sempre são mil maravilhas, e muita adaptação, desprendimento e criatividade se tornam necessários.

Já passaram por apuros durante viagens? Comenta ai pra gente se divertir um pouco.

Livre desse peso extra, retornei para a estrada e avistei uma caminhonete parada em frente a uma venda de frutas. Me aproximei e abordei as duas jovens tailandesas que não iriam rumo à Bangkok, e sim mais adiante. Eu poderia seguir com elas, mas só havia espaço na caçamba. Nem preciso dizer que abri um sorriso com certa proposta, né?

Pulei na parte traseira do veículo e fiz sinal para irmos em frente. Antes de sairmos ainda trocamos contatos para caso eu precisasse de algo. Enviei a localização de onde moro, mas avisei para me deixarem nos subúrbios de Bangkok, afinal de contas não queria abusar da boa vontade de Tik.

Com um sol escaldante e um vento refrescante eu tentava me posicionar de forma que minha face ficasse protegida. Percebendo a movimentação, elas me ofereceram um travesseiro para eu ficar mais confortável e também um Roti (uma panqueca do sul da Tailândia com leite condensado). Me digam, qual motorista de ônibus iria te oferecer isso?

Entre um veículo e outro que se aproximava, incontáveis foram os sorrisos destinados à mim, em especial quando eu mostrava a placa de “Happy New Year”.

O local que pedi para me deixarem se aproximava, e com ele nenhuma saída da rodovia aparecia. Acabamos por passar do ponto e um retorno atrasaria ainda mais as coisas. Eu estava disposto a descer em qualquer lugar e procurar um jeito de chegar em casa, quando elas me informam que me levariam até a minha morada. Amores de pessoas.

Tudo isso e ainda era somente o primeiro dia desse 2018, que promete render muitas boas ações e aventuras.

Obrigado à todos!

ขอบคุณ ครับ

 

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