Um dia em um Campo de Concentração

By campodegelo

A primavera Européia já fazia as cidades aflorarem, fossem pelas plantas coloridas ou pelo calor do povo que tornava a sair das suas residências em busca de algum Sol. Só esqueceram de avisar isso para a Polônia.

O ano era 2015, final de Março, e o impulso por novas viagens me trouxe até a Cracóvia, cidade polonesa, localizada ao sul do país, nas margens do rio Vístula. Mesmo com um centro histórico imponente, considerado Patrimônio Mundial pela UNESCO, e sendo um dos destinos mais inusitados da Europa, misturando arquiteturas góticas, renascentistas e barrocas, o que me atraiu mesmo foi a recente história e sofrimento vivido na região, mais especificamente durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto.

Berlim me mostrou o lado tolerante, o respeito que devo ter pelos outros, mas também escancarou as portas e alimentou o meu cérebro com doses de História. Comi livros, degluti filmes, me empanturrei com relatos e acervos de museu. Tudo era tão recente e assustador que eu não poderia ignorar, e toda essa curiosidade me apontou o mais temido recinto de todos: Auschwitz.

Uma rede de campos de concentração localizada ao redor da Cracóvia, mais especificamente em Oświęcim, para onde se pode pegar um trem local, com custo ínfimo, mas sem maiores informações. Ao chegar ao destino, placas em polonês me assustavam com sua quantidade de consoantes e palavras impronunciáveis.

Como um bom aventureiro espontâneo que sou, não estava preparado, nem possuía mapas ou Internet no momento. O que me salvou foi meu conhecimento precário de alemão e uma senhora amável, que compreendeu meus grunhidos e me mostrou o caminho até o campo de extermínio.

Uma caminhada de 15 minutos, com pensamentos leves, tentando me manter focado e calmo para o que estava por vir, e eis que surge a imponente entrada para um passado temeroso.

Arbeit macht frei!

Logo após a entrada, e ter obtido o guia de áudio (fiz a reserva online, mas optei por não pagar uma pessoa para me ensinar sobre o local), fui deparado com esses dizeres: O trabalho liberta!

Ao passar pelo portão, olho para o céu cinzento e um floco de neve cai sob o meu nariz. Parecia uma cena de filme. Foi o simples ato de tocar o solo, onde tanta tristeza se propagou, que uma nevasca começou, talvez para me ensinar ainda mais sobre os problemas por lá vividos.

O conjunto de casas de tijolos vermelhos reserva muitas exposições, com fotografias e relatos chocantes. Ao ver todas aquelas pessoas com pijamas finos e listrados, e me lembrar do frio que estava lá fora, eu me sentia agoniado. A cada sala, eu vivenciava ainda mais a maldade do ser humano.

A neve continuava a cair, e buscando um pouco de refúgio, segui um grupo de turistas para uma outra ala, com celas e instrumentos de tortura, mas o que mais me chocou ali foi o presente, e não o passado. Os estrangeiros dividiam os espaços e suas gargalhadas, tentando obter um melhor ângulo para uma selfie.

Uma selfie, um sorriso, e uma tremenda falta de consideração, ou de bom senso. Chame como quiser.

Achando que nada mais poderia me afetar, descubro o pior.

Uma sala de enormes proporções com sapatos, malas e os mais diversos objetos pessoais. Os prisioneiros que para lá foram enviados, recebiam a informação que seria apenas uma passagem temporária, algo bom, por isso deveriam levar os melhores pertences, que logo seriam descartados, ou mesmo furtados.

Ao chegar no campo de concentração, cada pessoa tinha seus cabelos raspados, para evitar a proliferação de piolhos e outras doenças, e eis que há um barracão, que até hoje guarda parte das madeixas que eram vendidas para a indústria têxtil alemã.

Isso mesmo, uma sala gigantesca com os cabelos de pessoas que sofreram torturas, passaram fome, vergonha, frio, e as situações mais degradantes imagináveis.

Foi de deixar o cabelo em pé

Além de tudo, ainda havia as câmaras de gás. Entre 1942 e o fim de 1944, trens transportavam judeus de toda a Europa ocupada para essas câmaras, onde dizia-se que seria oferecido um banho, e mesmo sabendo que de lá não retornariam, nada poderia ser feito.

Estima-se que mais de três milhões de pessoas morreram nos campos de Auschwitz.

Lágrimas brotaram involuntariamente, se misturando com os flocos brancos de neve e o sentimento de impotência e desolação.

Muitas pessoas me dizem que nao querem visitar lugares assim, mas acredito que mais do que nunca, eles jamais devem ser esquecidos, para nunca mais serem repetidos.

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4 thoughts on “Um dia em um Campo de Concentração

  • Ana Delavigne Março 6, 2018 at 14:47 Reply

    Apesar de pensar com você, de que o passado deve ser lembrado para não ser repetido, não sei se eu teria coragem ou estômago para uma visita dessas. O ambiente deve ser extremamente pesado e ver a falta de respeito dos outros turistas deve ser algo de tirar do sério, mas de toda forma excelente relato. Obrigada por dividir essa experiência, Gui.

    • campodegelo Março 6, 2018 at 23:56 Reply

      Era algo que me consumia há tempos.
      Tinha que colocar para fora e compartilhar, e lhe garanto, é bem mais pesado do que relatei 🙁

  • Sylvia Kuntz Março 7, 2018 at 20:15 Reply

    Imagino sua dolorosa experiência.
    Meu marido irá; eu não conseguirei.
    Compartilhei no Facebook.
    Obrigada.

    • campodegelo Março 7, 2018 at 23:36 Reply

      Realmente é bem pesado.
      Vi muitas pessoas chorando e não consegui segurar as minhas.
      Obrigado pela mensagem e aproveite a Cracovia 🙂

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