Utopia de Retalhos

By campodegelo

Bandeira.
Substantivo feminino.
Um pedaço de pano com as cores e emblemas de uma nação, estado, instituição ou agremiação.
Uma ideia ou objetivo que orienta um grupo.

Bandeiras podem ser um tremendo ato de desrespeito.
Elas escancaram estereótipos, supremacias, preconceitos.
Uma bandeira transmite uma crítica, entrega uma mensagem, toma um posicionamento.

O verde e o amarelo, o tricolor, o rubro-negro, o verde e branco.
O patriarquismo, o feminismo, as causas LGBT, a luta contra a desigualdade social e o preconceito racial.
Os padrões de beleza, as religiões, o posicionamento e os partidos políticos, o estilo musical.

Todas bandeiras com uma representação significativa.
Todas bandeiras simbolizando uma luta ou uma derrota.
Bandeiras acabam se tornando necessárias, principalmente para derrubar outras erroneamente hasteadas.

O ato de viajar esbugalha sua visão para elas.
Seja ao cruzar uma fronteira, ao ver uma cultura distinta, ou ao observar uma mulher viajando sozinha, temos várias bandeiras representadas.

Não hasteie a bandeira do ódio, por favor.

No meu utópico mundo perfeito, uma única bandeira tremula: a do respeito, a do amor, a da cordialidade.
No meu universo ideal, nenhuma causa é necessária. Nenhum jogo de conquistas é preciso.

Mas esse mundo (ainda) não existe. A realidade é mais cruel.
Estandartes já foram levantados há tempo.
O que nos resta é ajudar a juntar todas as bandeiras para fazer uma colcha de retalhos.

Sou homem, branco, heterossexual, de classe média. Una todos esses elementos e teremos mais uma bandeira.
Uma flâmula que balança muito mais alto que outras, e não sou eu quem diz isso.
Um brasão que não fiz nada para merecer, e que não deveria me definir.
Atributos que não definem qualidades, mas que ainda assim são considerados pela sociedade como superiores (uma lástima).

Na utopia viajante do meu imaginário, não são as bandeiras que ditam o ritmo, mas sim os hinos de cada elemento.
Não julgo as aparências, mas sim os conteúdos.
Pouco me importa como você é, mas sim o que você faz.

Talvez eu erga a bandeira da carona, do desapego, da ingenuidade, mas não me leve a mal.
Estou apenas buscando a tal da utopia dos retalhos.

Desmerecer um feito porque não representa a sua bandeira?
Por favor, não seja essa pessoa. Você não é melhor que ninguém simplesmente porque defende, se identifica ou representa alguma causa.
Não surfe na onda das bandeiras. Não pegue carona no vitimismo.
Faça da sua bandeira – se justa – a sua luta e não a sua glória.

Não adianta nada derrubar a bandeira do patriarquismo, para substituí-la pela do matriarquismo.
Não vejo sentido em trocar uma elite por outra.

Fácil para eu falar isso, sendo que não sofro com muitos dos estigmas da sociedade, não é mesmo?
Mas qual o sentido de trocar uma bandeira pela outra?

Pelo bem das perguntas retóricas, dos debates construtivos, e de uma melhoria conjunta para todos, vou lutar por uma única bandeira, mesmo que me digam que não passa de uma utopia.

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