Matar intencionalmente um ser senciente é uma atitude muito grave, e se possível devemos evitar acabar com as vidas até das menores, e mais inofensivas criaturas. Criando tal hábito de respeito, desenvolvemos uma atitude similar para todos os demais.
Com essa lição e preceito, sou introduzido ao Templo de Sudeoksa, localizado no meio de montanhas da Coréia do Sul.

O programa chama-se Temple Stay, e como bons entendedores do idioma anglo-saxão, podemos concluir que uma estadia em um templo, no caso budista, será desfrutada. Esse projeto é oferecido por diversas entidades, e tem por finalidade a imersão, mesmo que por um curto tempo (3 dias), dos seus participantes na prática e vida dos monges.

Não pense que a vida de um simpático ser, de cabelos raspados, robes confortáveis e sorriso aberto, é fácil. A rotina deve ser cumprida à risca, começando exatamente às 3 horas da manhã, com orações, meditação e prostrações.
Por meditar, não pense simplesmente em fechar os olhos e deixar que o pensamento viaje por você. Aliás, isso é que deve ser evitado. Ao sentar-se com a coluna ereta e pernas cruzadas (esquerda por cima da direita), devemos nos concentrar na nossa respiração, para que nossa mente foque-se e não se perca. Paciência e perseverança são dádivas, pois o processo pode ser cansativo e doloroso.
Pegue um copo d’agua e agite-o. Este é o estado da nossa mente, sem o devido controle. A turbulência do dia a dia faz com que o raciocínio seja atrapalhado, gerando conclusões e consequentes ações equivocadas. Sendo assim, os ensinamentos budistas e a meditação tendem a tranquilizar essas águas. Com a estabilização, e mantendo um temperamento sereno, o auge seria não demonstrar excitações, seja para o bem, ou para o mal.

Segundo os budistas tibetanos, 108 é o número que se deve repetir um mesmo mantra ou uma mesma mentalização, em cada prática. De acordo com os meus joelhos, 108 é um número muito alto para qualquer atividade.
Colocado de pé e frente a frente com outra pessoa, com as mãos unidas (levemente curvadas, na altura do coração, tocando só as bases das palmas e as pontas dos dedos) fui incumbido de mentalizar que coisas boas seriam conquistadas pelo meu par, e que assim ele atingiria a iluminação (estado máximo). Logo após, deveria colocar-me de joelhos no chão, e tocar meu antebraços e minha testa no solo, numa perfeita prostração budista. Depois de tornar minhas palmas para cima, e levemente erguer as mãos, eu deveria colocar uma peça no rosário vazio, colocado à minha frente. Levanto-me e fito a pessoa que estou desejando tudo de melhor, esperando a reciprocidade (que o sorriso dela indica), e repito a ação, até que todas as 108 partes estejam no seu devido lugar.
Mentalização repetida sinceramente, eu realmente enxergava um (no caso uma) Buda à minha face.

Vale lembrar que o Budismo não é simplesmente uma religião, mas também um sistema ético e filosófico, com diversas crenças e práticas, geralmente baseadas nos ensinamentos de Buda, que em sânscrito (antiga língua sagrada da Índia) significa iluminado. Esse título é dado a um mestre budista, ou a todos os iluminados que alcançarem a realização espiritual budista. Embora existam muitos Budas, Siddartha Gautama é o mais conhecido deles (por ser o fundador, Buddha Shakyamuni). É preciso também frisar que Buda não é um Deus, e este fator não existe no Budismo.

Outras lições, obtidas durante os dias vividos no templo, são os conceitos de apego, desejo e impermanência.
Não pense que amar o próximo não é permitido, porém o apego, a algo ou alguém, deve ser controlado, até o ponto de não existir.
Estamos apegados às nossas posses, estamos apegados às pessoas que amamos, estamos apegados à nossa posição no mundo, e à nossa carreira e ao que alcançamos.
Pensamos que segurando essas coisas, e essas pessoas firmemente, teremos segurança, e que ela nos trará felicidade. Essa é considerada a nossa desilusão fundamental, pois é o próprio apego que nos torna inseguros, e a insegurança nos dá a sensação de constante mal-estar.
Uma mente apegada é a causa do nosso sofrimento, e estamos constantemente enganados, porque pensamos que a nossa ganância, e nossos desejos apontam para as fontes de felicidade. Posso estar soando abstrato e sonhador, mas o fato é que nossos desejos nunca podem ser totalmente realizados, pois as aspirações são infinitas. Buda compara-as com beber água salgada. Quanto mais bebemos, mais sede temos.

Falando em água, preciso mencionar como foi a experiência alimentar com os monges. Partindo do princípio de não matar seres vivos, é compreensível que a base seja toda vegetariana, mas o fato marcante é evitar desperdícios.
Arroz, legumes e demais são colocados em uma tigela maior, enquanto uma sopa é postada na menor.
Há todo um ritual com os panos colocados acima dos recipientes, mas a descrição do mesmo é complexa. O relevante mesmo é que devemos manter um kimchi (repolho fermentado, já mencionado aqui ). Nosso repolho-esponja faz o serviço sujo, enquanto a água ajuda a tirar as impurezas. Em excesso, o líquido é um problema, pois beberemos essa mistura depois.
Isso mesmo!
Comemos tudo, limpamos com o último repolho e bebemos o enxágue. Assim todo desperdício é ingerido.

O último, mas não por isso menos importante, conceito abordado é o de impermanência, e para demonstrá-lo construímos e observamos o desenvolvimento de mandalas de sal, por monges tibetanos.
Seguido da escolha de um tema, elabora-se o desenho e espalha-se o sal colorido por um papel.
Gostaria de possuir a habilidade dos monges para construir tão atraente mandala, mas nunca me destaquei nas aulas de Artes.
Ao final de todo o processo, um choque. Contrariando todas nossas crenças e ideologias, a mandala deve ser destruída. Segundo o Budismo, precisamos viver apenas o momento.
Construímos algo, usufruímos disso no instante, mas como tudo é passageiro e impermanente, vai chegar a um fim. Esse princípio também revela como a morte é melhor recebida e tratada por essa filosofia.

Muito foi aprendido, e mais ainda incitou a busca por mais conhecimento. O caminho é árduo e o processo doloroso.
A intenção deste post não é converter ninguém (até porque não fui convertido), muito menos tentar uma lavagem cerebral. É mais como um livro, escrito por Dalai Lama, afirmando que não importa a nossa religião, ou até a falta dela, princípios éticos devem ser seguidos por todos.
Creio que todo aprendizado nos engrandece, mas se vamos atingir o Nirvana (extinção definitiva do sofrimento humano alcançada por meio da supressão do desejo e da consciência individual), só o tempo dirá.

Como diria Kurt Cobain:

“I can’t see the end of me
My whole expanse I cannot see
I formulate infinity
Store deep inside me”

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