As ruas condensam os fantasmas no retrovisor. Na madrugada os poucos transeuntes se protegem da chuva. Beatriz repete mentalmente palavra a palavra, situação a situação, absurdo a transtorno, para não deixar escapar a construção de um novo conto, quem sabe até de um romance. As taças de vinho embaçam a lembrança das conversas. Figuras de terno e gravata repetiam: A senhorita está sozinha? Mulher bonita assim não pode ficar desacompanhada. Aceita uma bebida? Sabia que não deveria ter saído de casa. Sabia mais ainda que, ao sair, tinha sempre de carregar o bloco de notas — como pude esquecer? Sim, mais um tinto, por favor. Fazia tempo que não ligava para a opinião dos outros. Os encontros eram apenas pesquisa de campo, levantamento criativo: um jogo de cartas com o diabo. As frases ecoam, precisa chegar em casa antes que as esqueça. As novas velhas personagens dançam junto com a luz vermelha dos semáforos,  quando ao seu encontro se choca um automóvel saído das sombras. 

   Beatriz não vê a ambulância chegar, tampouco o transporte até o hospital, muito menos a cirurgia para retirar o coágulo do cérebro ou a entrada de Júlia na unidade de tratamento intensivo. Beatriz se perde entre o limbo e o purgatório. Em coma e sem sinais de recuperação, não precisa lidar com a repercussão da mídia e a aclamação popular. As vendas das suas obras disparam. Enfim, seu nome estampa os noticiários, de jornalecos sensacionalistas a postagens nas redes sociais. Críticas aclamam seu trabalho. As frases são devoradas, compartilhadas, tatuadas. Cogitam filmar seu último livro, transformar uma de suas histórias em série. No leito, ela também se resume a um pulso elétrico.

   — Bom dia, Julia. Como está hoje? 
   — Bem, acho que bem.
   — É muito bom você estar aqui. É importante para a recuperação da sua mãe. 
   — Uhum. Como ela reagiu nesta noite?

   — A situação é delicada, mas estável. E cheirosa, acabei de dar banho e trocar o soro. Você já pode entrar. 

   — Ah, bem. Obrigada.
   — Esqueci de comentar, li o último de Beatriz e é simplesmente sensacional. É autobiográfico?

   Júlia não sabe o que responder, mas também que porra de pergunta era aquela, nunca leu um livro dela, como haveria de saber? Na infância decerto se deparou com as letras maternas, fato que fez questão de evitar com o florescer de ausências. Passou pela sua cabeça deixá-la sozinha, como ficou na porta da escola tantas vezes, debaixo de chuva e sob os olhares de outras mães que partiam com suas filhas embaixo das penas. Ao receber o telefonema avisando do acidente, cogitou dizer que estava em outra cidade, país, até planeta, mas tinha repulsa à invenção de histórias. Bêbada inveterada, maníaca narcisista, as cenas rebobinavam na sua mente. Nunca quis se aproximar de mim e agora quer me sujeitar a isso.

   Pela manhã Júlia nota uma aglomeração na porta do hospital. Jornalistas de tocaia a aguardavam, sedentos pela salinidade de seus olhos. Entre as perguntas, uma chama a atenção: qual era a fonte de inspiração de Beatriz para compor os conflitos familiares? Consegue se desvencilhar da alcateia em silêncio e passa rapidamente pelo saguão. Entra no quarto com as mãos trêmulas e observa um livro na mesa de cabeceira. De quem mais seria, senão da magnânima escritora, palestrante da casa do caralho, acadêmica da Universidade Federal da Puta que o Pariu? Para que serviam todos os títulos, se agora não passava de um vegetal? Júlia observa a mãe, um ser continuamente desconhecido e desfigurado. Reclina na poltrona e folheia o passado. 

   As agruras do tempo sorviam a vontade de viver da jovem poeta. Raízes nunca antes firmadas eram finalmente arrancadas a tapas. A barriga crescia no ritmo da desesperança. Remover a semente era um pensamento pulsante, incontrolável. Mas como, se os sonhos já não passavam de migalhas secas? Ao saber da paternidade, ele desapareceu deixando apenas a marca de cinco dedos estampada no seu rosto. Pai e mãe não queriam sua presença nem para um almoço de domingo, os irmãos estavam mortos e seu destino caminhava na mesma estrada. 

   Júlia interrompe a leitura. Balança a cabeça para os lados e volta ao mesmo parágrafo. Mais uma vez, outra e novamente. Não consegue se concentrar. É uma ficção, nada mais do que isso, uma história inventada. Pare de bobagem. A enfermeira bate na porta e avisa que o horário de visitação está encerrado. Naquele dia não retorna ao trabalho e vasculha as livrarias da cidade. Compra todos os volumes que encontra com o nome de Beatriz na capa e corre para casa. Se detém em um diálogo.

   — Maria, por favor, é somente por uma semana.
   — Já falei que não posso. Tenho outras crias, roupa de fora pra lavar, casa pra limpar. O José Carlos também não vai gostar nada disso. Você não tem uma irmã? Uma tia que pudesse cuidar da pequena? A vizinha do 67 não falou que ia te ajudar?
   — Ela não pode… Preciso trabalhar, Maria. Por favor.
   — Desculpe, minha amiga. Você devia ter pensado nisso antes de colocar ela no mundo.

   Os nomes não faziam sentido, mas todo o resto soava familiar. Ela procurava nas linhas e entrelinhas qualquer indício, um sinal que fosse para compreender o sentido da sua existência. Os meses se passaram entre idas e vindas no hospital. A cada encontro, o peito arfando por aparelhos enchia um pouco o coração de Júlia. Mas necessita mais, não era o suficiente, precisa beber mais do leite materno. Derruba as chaves ao tentar abrir o veículo, fura um sinal vermelho por distração e chega até o apartamento de Beatriz. Não espera a porta fechar e começa a revirar as gavetas do escritório. Boletos, registros, contas vencidas, contas não pagas, jornais desbotados. Nada relevante. Parte para a estante de livros e abre um a um. Ideias caem dos papéis. Telefones anotados ao lado de nomes masculinos em garranchos deitam ao chão. Maldita, onde ela guarda os esboços, os diários? Onde estão as fichas sobre mim? Prestes a desistir, Júlia vê um bloco com anotações em cima da mesa de cabeceira. Cai de joelhos antes de empapar as páginas com seus olhos. Um trecho fica praticamente ilegível.

   Toda desconstruída, espiritualizada, imita até a pose de Buda para fotografias. Queria mesmo ver reproduzir Jesus na cruz. Mas prefere jogar a primeira, a segunda, a milhardésima pedra. Eu sei que errei, desde o começo. Envolvida muito jovem, acreditei que poderia ser amada, e fui. Nem que por uma noite, eu senti uma correspondência. Depois, a sensação de um pequeno ser se movendo dentro de mim, me deu um chute e tirou meu apoio. Caí na realidade. E juro, juro que tentei fazer dela a melhor possível para você. Ao meu jeito, sem espelhos para me guiar. Hoje, vejo de longe uma mulher crescida, e penso em tudo que deixei de te dizer. 

   Júlia não sabe onde se apoiar. Se pelo menos pudesse falar com ela, saber o que  a mãe tem para dizer. Coloca o bloco na bolsa e o leva na próxima visita. Lê alguns trechos em voz alta. Passagens desconexas, ora sobre impressões das ruas, ora com descrições físicas e psicológicas de mentes perturbadas. Quando se levanta da poltrona, percebe a movimentação dos dedos na mão de Beatriz. Mãe, mãe? Está me ouvindo? Mãe, acorda mãe. As pálpebras titubeiam e lentamente começam a se abrir. A luz ofusca a visão de Beatriz. Júlia está em prantos, mas sorri. Os minutos correm enquanto as duas tentam situar o momento. Forçando a aproximação da filha, a mãe murmura algo quase inaudível. Repete.

   — Preciso, preciso… meu bloco de notas. Preciso continuar uma história.

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2 thoughts on “Cicatrizes

  • Otto 4 de agosto de 2022 at 17:03 Reply

    As nossas escritas dizem muito sobre a gente, te tirar de uma situação como essa pq alguém leu algo seu é surreal, o íntimo nosso se faz presente na ponta do lápis, muito sensibilidade colocar Bia pra pensar que talvez si a escrita fosse reconectar sua mãe com o externo.

    As vezes o que a gente precisa é de um bloquinho de notas, lápis e silêncio.
    Ta lindo demais isso aqui, parabéns!

    • Guilherme Eisfeld 4 de agosto de 2022 at 17:39 Reply

      Otto, obrigado mesmo pelo comentário. Acho que a escrita é isso, tem que incomodar, tem que sensibilizar e tocar feridas sem ser totalmente didático. Estamos juntos, meu querido.

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