Como nossos filhos

By Guilherme Eisfeld

 Quando coloquei minha bunda branca na cadeira escolar e preenchi o nome no caderno de provas, haviam se passado dezoito anos. Os parcos cabelos de hoje denunciam a maioridade temporal desde o dia que prestei o vestibular pela primeira vez, mas o poder de escolhas de uma bunda branca {e masculina [e hétero (e cis)]} fez com que eu não me adequasse às ciências exatas e buscasse uma reintrodução: de mercado, não de bunda. 

 Almocei cedo, coisa leve, não dá para comer feijoada em dia de vestibular, e tomei o ônibus até o local de provas. Nessa altura da vida talvez eu devesse possuir um carro e certamente não cogitaria uma nova graduação em pleno final de semana. Sempre desejei uma Kombi. Quem sabe a nova, moderna, elétrica? Cabelo ao vento (lembrete: agendar implante), gente jovem reunida (está um pouco difícil fazer novas amizades), braço para fora, cigarro elétrico na mão, na parede da memória olharia para o lado e veria meu avô pilotando seu gol chaleira. Essa lembrança é o quadro que dói, só não mais do que as costas. 

 Bato o olho na redação: os efeitos do etarismo na sociedade contemporânea. Ao meu redor, para surpresa, não sou o mais velho, talvez o mais novo. Alguns completamente grisalhos. Aspirantes (experientes) ao ensino a distância, uni-vos! Suspiro um pouco aliviado e começo a redigir uma crônica sobre como me vejo fazendo vestibular depois de dezoito anos. Minha dor é perceber que apesar de ser um escritor, era necessário um texto argumentativo-dissertativo, deixando claro e sustentando meu ponto de vista com argumentos. Que merda. Se a inteligência artificial colocasse Belchior na minha frente, ele me daria um tabefe e fugiria para o Uruguai antes que eu formulasse o primeiro argumento.

 O lado bom de prestar vestibular depois de um tempo é que não existe mais a possibilidade de dar branco. O conteúdo não está mais na cabeça, não tem como sumir. Em compensação o nervosismo e a crença num futuro melhor dão lugar às realidades de mercado. Dificilmente viverei dos meus escritos e possivelmente uma nova graduação é apenas uma forma de prorrogar a vida adulta. Por isso, cuidado meu bem, há perigo na esquina. Eles ainda não venceram, mas o sinal está quase fechado para nós que já não somos tão jovens.

One thought on “Como nossos filhos

  • Michael Darolt 29 de agosto de 2023 at 07:31

    “só não mais do que as costas” Esta dor é sobre a não possibilidade de continuidade? Tem algo a ver com seu texto dos sonhos?
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    Descobri seus escritos buscando ideias para Kaliningrado. Infelizmente não vai ser desta vez que farei de carona… ahaha
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    Abraços! Sucesso!

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