(Depois do nascimento, se houver uma data em que o pai se torna mais presente na vida da criança, será durante o dia dos pais, quando muito. Façamos de conta que estamos em uma realidade alternativa onde tal corolário não se aplica)

— Professora, professora. Quero participar da dança das cadeiras. Por favor, por favor, por favor.
— Eu também. — Eu quero. — Me chama. — Aqui, meu filho, professora.

(Sabiás e bem-te-vis sobrevoavam o pátio observando crianças e adultos)

— Tá bem, tá bem. Um, dois, três… vocês cinco: Vão para aquela sala e esperem até que alguém vá buscá-los — apontou o final do longo corredor.

(O trinco da porta vibrou ao ser fechada)

— Ué. Por que mandaram a gente ficar aqui? — o menor de todos receou.
— Não sei. Será que vai ter alguma surpresa? — a mais esperta sonhou.
— Devia ter ido na pescaria — a de trancinha reconsiderou.
— Preciso fazer xixi — o agitado se segurou.
— A janela tá aberta — o japonesinho espiou.
— O que tá acontecendo lá fora? Quero ver.
— Tem uma roda…
— Roda? De carro?
— Não. De cadeira.
— Cadeira não tem roda, burro. Sai daí.
— Tem gente sentada em roda lá fora.
— Quem tá sentado em roda?
— Não sei. Tem um pano em cima.

(A porta foi escancarada)

— Crianças, podem sair. O jogo vai começar. 

(Os sabiás fugiram ao soar dos primeiros acordes. Os bem-te-vis tampouco estavam à vista)

— Quando a música parar de tocar, quem não estiver na frente do seu pai, será eliminado.
— Como assim, professora?
— Os papais de vocês cinco estão sentados nessas cadeiras. Eles estão cobertos com um lençol e têm somente os pés de fora. Quando eu apitar, vocês vão rodar em volta deles. E assim que a música parar, vocês tem que correr para frente do papai. Vamos ver quem conhece o papai pelo pé?
“Que moleza. Meu pai tem o mesmo tênis que eu”, sorriu internamente o mais agitado.
— Para deixar o jogo mais justo, os pais tiraram os sapatos, e as únicas coisas à mostra serão os pés deles. 

(Os cinco começam a girar como abutres ao redor da carniça)

Que c’ocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha? Que c’ocê foi fazer no mato?
— Mentiram pra gente. Isso não é dança das cadeiras — constatou o menor.
— Tá com medo de perder? — interrogou o japonês.
— Tá com medo! Tá com medo!
— Não parem, crianças. Sigam andando ao redor do círculo, mesmo que já saibam quem é o pai de vocês. 
— Eu reconheceria meu pai até no escuro — se gabou a de tranças.
— Fecha o olho então — propôs a mais esperta.
Quem é que tava lá com você, Maria Chiquinha?
— Anda logo — apressaram o passo.
Eu nunca vi mulher de bigode, Maria Chiquinha.
— Eu já sei, eu já sei — alegrou-se o mais agitado.
— Parou, parou, todo mundo fica onde está.

(Nem um pio mais)

— Tchan tchan tchan tchan. Vamos ver agora quem conhece o papai de verdade. Começando por você — o indicador esticado para o mais agitado.

(O lençol alçou vôo)

— Esse pai é meu! — esbravejou o japonesinho.
— Tá precisando tomar mais banho com o seu pai, hein? — gargalhou alguém de fora da roda.
— Não reconhece nem esse dedão feio? — bufou o pai da trancinha.
— Ainda bem que não foi você — agonizou o igualmente pequeno, pai do menor de todos.
— Eu sabia que isso ia dar merda — afirmou o patriarca que se achava o mais esperto.

(O pátio foi tomado por hienas)

— Que fiasco hein, moleque?
— Pior que o meu também mandou mal — notou o japonesão.
— Não falem assim, eles estavam nervosos — tentou a professora. 
— Nervoso estou eu, de tanto rir.
— Essa festa está melhor do que eu pensava. Pena que não tem cerveja.
— Nem mulher bonita.
— Você não é casado?
— Sou, mas olhar não tira pedaço.

(Urubus também estavam em alerta)

— Desculpa, pai — choramingou o agitado.
— Não tem problema, filho — puxando um abraço. 
— Eu tinha certeza…
— Nunca seja o primeiro a falar.
— O quê?
— Deixe os outros se arriscarem antes.
— Não entendi, pai.

(Duas  cadeiras foram retiradas da roda)

— Vamos voltar ao jogo, crianças?

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