Quando o vizinho colocou a bandeira verde e amarela na janela, tremi. Faltavam ainda alguns meses para a Copa, e menos tempo para uma decisão ainda mais importante. Curitiba parecia prestes a abraçar o esquete canarinho, porém no fundo estava apenas fantasiada de membro fálico disfuncional — meio mole, meio intolerante, em crise estética por inteiro. 

   Comprei uma camiseta com os dizeres “Deus me livre do cidadão de bem”, e se ele realmente fosse brasileiro, acataria meu pedido. A amarelinha com o símbolo da Nike continuava no fundo da gaveta, já sem naftalina porque acho que ela saiu de moda. A última vez que as vi, ou senti, foi no mictório de algum boteco barato. Um dia, enquanto caminhava na rua com o meu pedido divino colado ao corpo, cruzei com o vizinho. Trocamos cumprimentos, e percebi seu olhar na altura dos meus mamilos. Deus escreve certo em mamilos tortos. A mensagem parecia ter sido captada. 

   Durante a apuração do primeiro turno, tremi. Mesmo confiante, como o brasileiro médio que se ilude a cada quatro anos vendo a bola rolar na tv, tremi. No segundo turno não fui displicente e escolhi o melhor batedor para abrir as penalidades. A melhor batedora, melhor dizendo: minha avó. Aos 86 anos, ela perguntou se eu poderia levá-la até as urnas. Afirmou que seu pressionar de dedos faria a diferença naquele dia. Experiência, anos de cancha, sabia lidar com a pressão. Não decepcionou, nem fez dancinha. 

   Chegando em casa, coloquei um espumante para gelar. A contagem começou, com horas de agonia e terror. Tremendo, estourei a rolha de plástico assim que a virada aconteceu. Berrei à janela como se fosse um gol do Brasil na prorrogação. Brindei, sorri, avancei as linhas de marcação. Era possível um novo empate à essa altura? Faltava pouco tempo para o fim, seria necessário ter cautela? Gritei ‘fora fascista’ a plenos pulmões na janela. O pudor havia se aposentado junto com as naftalinas. Desde aquele dia, o vizinho nunca mais me olhou com simpatia. Parecia que eu tinha vibrado com o gol da Croácia a quatro minutos do fim. Logo eu, que o abraçaria com alegria se o hexa se consumasse. Da próxima vez comprarei uma camiseta com os dizeres: Deus me livre da ilusão futebolística.

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