Peço desculpas de antemão. Não por mim, mas pela minha família e suas crenças arcaicas. Eu mesma não gostaria de estar aqui.
Olhe bem ao redor. Está vendo todos os cadáveres? Sente o aroma da putrefação? Pernas, braços, cabeças, corações e fígados dispostos sem o menor pudor. Há quantos dias estão mortos e pendurados em ganchos?
Eu tento desviar o olhar, mas a viscosidade parece impregnada até nos azulejos. O rubro mancha os homens vestidos de branco. Receio que possamos ser os próximos.
Ao entrar, meu pai pega um pequeno papel numerado: nossa senha para a morte. Vagamos pela sala diminuta e fria, observando a perversidade nas geladeiras. Um grupo de pessoas se aglomera ao redor, aguardando o chamado. Um a um, eles conversam com os homens de branco. O que mais me assusta é quando um deles vai até os fundos da sala e liga um aparelho metálico, que estraçalha e dilacera os corpos.
Não quero imaginar a vida destes homens. O quanto pagam de terapia para viver com o sangue nas mãos? Será que conseguem dormir tranquilos? Nosso número pisca em um mostrador digital – vermelho obviamente. Meu pai me chama e a contragosto me aproximo do homem de branco. Cometo o erro de olhar através do vidro que nos separa. Intestinos, línguas, talvez até testículos; peles, ossos, descabíveis pés. Fecho os olhos, respiro fundo. Minha mãe pede para eu abri-los, diz que tenho que ser forte. O homem de branco sorri sarcasticamente e pergunta no que pode nos ajudar.
Veja bem, querido, poderia começar fechando esta espelunca, este mortuário, deflagrando a chacina, protestando nas ruas pelo banimento de tal atividade, que tal?
Meu pai toma frente e questiona o que está mais fresco e em conta.
Já pedi desculpas pela minha família, não é mesmo?
O homem de branco mostra orgulhoso as costelas de um defunto. As coxas atléticas de outro falecido são ensacadas e colocadas em uma balança.  Tripas cheias de destroços e gordura congelada são selecionadas.
Não posso mais aguentar isso, falo que vou esperar do lado de fora. Perguntam se vou querer alguma coisa. Aponto para o pão de alho.

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