O mar sempre fez questão de ser áspero comigo – ouvindo meus anseios, tanto quanto meus receios. Vovó, embora muito católica, dizia ser Iemanjá, e que era para eu ter cuidado e respeito. Pequeno que era, não entendia bem, mas temia seu volume e sua quebra, mesmo em dias sem ressaca. Meu passatempo favorito era fitá-lo, indo e vindo, vindo e indo, enquanto eu ia e vinha com meu baldinho cheio da sua água, para reforçar as paredes do meu castelo em construção. 

Estrelas do mar pelo caminho, caracóis e caramujos, conchas e outros seres marítimos, que se escondiam rapidamente quando me aproximava, criando pequenos orifícios que espirravam água para cima. Micro gêiseres de fontes não termais, porém insidiosas de calor durante os meses de verão. Pequenos suspiros de alento na vastidão de crianças correndo, cavando, se enterrando, e principalmente competindo para descobrir quem confeccionaria o melhor palacete de toda a faixa de areia. Besuntados de protetor e munidos de chapeuzinhos coloridamente espalhafatosos começávamos a árdua missão de levantar masmorras, fortificar muros e envolver tudo em fossos, onde jacarés, digo, tubarões fariam a escolta e a segurança contra invasores dos reinos rivais.

Certa manhã uma garotinha perguntou se poderia ajudar. Eu não disse nem que sim, muito menos que não, então ela se juntou a mim. Logo de início já ficou escancarado que não entendia bulhufas de arquitetura de castelos, mas eu estava tão atarefado que não tinha tempo para repreendê-la. Indiquei o balde e pedi que trouxesse mais água. 

Notei que o reinado à sudoeste crescia vertiginosamente. Tal seria também: o patriarca do menino se juntou à empreitada. Não era justa a interferência de outras gerações! Desta forma aquele castelo já começaria em vantagem, desde o berço.

Foco no meu, que vovó também disse que inveja não enche a barriga de ninguém. Um minuto de desatenção e a menininha que dizia me ajudar, estava colocando conchas na fachada da minha  fortificação. Não se pode confiar nas pessoas mesmo. Você dá a mão e querem logo encher de anéis. Briguei, bati o pé e falei que aquela era a minha construção. A mi-nha! Ela saiu de perto, chorando, gritando, me chamando de bobo e feio. Fiquei com o coração apertado, mas a importância da tarefa exigia comprometimento, e ela pensava que aquilo era só uma brincadeira.

Sondei meus arredores novamente.  Percebi que à noroeste um outro fedelho copiava tudo o que eu fazia. O formato retangular com as suas quatro torres, a ponte e o fosso, tudo milimetricamente espelhado. Descaradamente, ele me acenou. Era um conhecido de outras engenharias. Olhei mais atentamente. Muitos meninos e meninas cresciam seus sonhos juntos comigo. Alguns similares, outros totalmente distintos. A maioria se desvencilhando e mudando o projeto durante o percurso, às vezes abruptamente, ocasionalmente sem que se notasse o afastamento. Talvez por uma adaptação à areia do entorno. Em muitos casos, sem muita explicação mesmo, como se um fluxo de novas ideias ou relações caísse do céu. 

Absorto que estava, não previ o perigo que se aproximava. Minha proteção não tinha efeito contra o garoto mais velho, que correndo destrambelhado, pisoteou e chutou grande parte dos nossos castelos. Com um sorriso de desprezo, vociferando palavras que não compreendia, ele chegou e sumiu, devastando nosso tempo e nossa coragem. Uns choraram, outros desistiram. Eu engoli em seco, e resolvi seguir em frente. Precisava ser rápido, caso contrário a maré iria subir e meus dutos não estariam abertos para inundar os fossos de resguardo. A reforma se deu aos frangalhos, e sem nenhum planejamento mais, como se meu castelo fosse um Frankenstein inanimado, com partes expostas por todos os lados, sem muita conformidade, mas crescendo constantemente.

 Acho que nenhum de nós estava preparado quando o mar chegou. Não havia suavidade, nem sutileza nas suas ondas.  Ele levou tudo o que encontrou pelo caminho, lavando a alma, louvando a calma. Destruiu quase todos os castelos, o meu inclusive. Deixando de pé, somente um deles, mais distante e iniciado depois dos demais. De uma beleza, gentileza e consistência que nenhum outro conseguiu. Era o castelo da menina que expulsei da minha construção, que com a ajuda de outra garota, foi erguido com muita vontade e  perseverança. O mar sempre fez questão de ser áspero com todos nós.

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One thought on “O Mar é Um Moinho

  • Mariana Munhoz Larini 26 de abril de 2022 at 13:12 Reply

    Bora insistir na construção do nosso castelinho. Sem es-tru-tu-ra para lidar com a foto do tomatinho na prancha! Tô há 5 horas presa nela 🙂

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