Sem compreender se era seu corpo ou sua casa que tremiam, Iryna foi retirada à força do seu esconderijo pelo jovem soldado russo. Os passos pesados e a batida ecoante na porta trouxeram alguma esperança por míseros segundos para seu coração, mas fora rapidamente varrida, junto com sua fraqueza acinzentada. A fome e a destruição digladiavam-se com as incertezas, que hora após hora pareciam crescer nas escuras e gélidas águas do Mar de Azov. Aquele rapaz poderia ser seu filho.

– Onde estão os outros? Cadê todo mundo, babushka? – urrava Andrei ao empurrar a senhora para fora do porão frio e úmido.

Com o rosto cortado e olhos cerrados por causa da luminosidade de uma superfície desolada, Iryna ainda teve tempo de colocar a mão esquerda ao bolso, tocando com seus dedos secos e ásperos a alegria de uma outra vida em forma de pingente.

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– Mamãe, mamãe! Falta muito para chegar?

– Só mais um pouco, querido. Tenha paciência.

Iryna e seu filho sacolejavam no compartimento da pior classe de um trem, abandonando os subúrbios de Rostov rumo a Mariupol. 

– Papai vai estar lá esperando? – balbuciou o pequeno, olhando com carinho a imagem dentro de  um diminuto compartimento, preso a um fino colar no seu pescoço.

– Espero que sim, meu filho. Espero que sim.

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A velha juntou as mãos e começou a orar baixinho em russo. Não por si, mas pelo soldado à sua frente. E principalmente pelo rapaz à sua imagem e semelhança.

Andrei não sabia ao certo como veio parar na linha de frente do pelotão de ataque ao sul da Ucrânia. Deveria ter ouvido seus amigos e familiares quando ofereceram ajuda e até a possibilidade de suborno para livrá-lo do alistamento militar. Era orgulhoso. Acreditava ter pleno poder para decidir e lutar se fosse preciso, até se deparar com o primeiro corpo ao chão. Agora era tarde para se arrepender. Era necessário ser forte e honrar a pátria mãe. 

– Pare com essas artimanhas baratas! Vomitando palavras com sotaque russo, como se eu não soubesse sua origem imunda! Onde os soldados estão escondidos?

Iryna gostaria de saber a resposta, queria tanto encontrar seu filho para um abraço apertado,  porém o medo era maior que a vontade de um afago. Caso possuísse tal informação, não saberia como se comportar em caso de tortura. “A verdade, mesmo limitada ou escondida, é menos dolorosa que uma mentira” – pensava constantemente. 

Ela bem poderia ter escapado junto com sua nora e neta, quando estas foram para a fronteira com a Polônia, entretanto mais um abandono seria fulminante. Nunca vou me perdoar se ele voltar e eu não estiver aqui para recebê-lo – entoava em sua mente.

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Aos 21 anos, Iryna deixara o mar e viera para o interior da União Soviética. O sonho de formar uma família e educar crianças na sua terra natal fora desmantelado com o fervor da Guerra Fria. Era perigoso continuar no mesmo local depois da descoberta do paradeiro de Dimitri, então, mesmo grávida, se despediu do marido com um nó na garganta.

– Siga para o interior, encontre minha irmã e não fale com ninguém sobre nós. Eu preciso enviar este telegrama antes de poder me juntar a vocês – Dimitri, com seu corpanzil forte, acenou para a esposa se distanciando pela janela do trem.. 

Ele fora um combatente na Grande Guerra, mas capturado por nazistas em solo polonês, fora mantido como prisioneiro, e torturado não aguentou, cedendo localizações e planos soviéticos. Por alguma graça ou benevolência sem compreensão, fora libertado para viver com as sombras que passou a carregar. Iryna e a protuberância crescente do seu ventre eram seus únicos combustíveis para continuar pulsando. 

Grávida e desgastada, ela não queria partir sem o marido, porém a promessa fixada em olhares firmes, e seu simbólico gesto, ao ceder o pingente que carregou a vida inteira, demonstrava sabedoria por parte de Dimitri.

– Leve-o consigo, e me entregue quando nos vermos novamente. Dentro estão as imagens dos nossos antepassados. Eles protegerão a sua jornada.

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Iryna mentira para preservar a inocência de uma criança. Alimentara a crença de uma paternidade heróica, porém distante. No fundo, tinha receio que fossem atrás do seu menino, se soubessem sobre a sua origem. 

Nunca chegou notícia alguma de Dimitri. Nem boas, muito menos más. Interiormente, um pressentimento gritava que agora seu amado vivia apenas nas suas lembranças. 

Quando o soldado a tocou com o dorso da mão, ela previu o fim. Não adiantaria derramar as lágrimas guardadas durante tantos anos. Não haveria onde se esconder, não poderia recuperar o tempo. Restava apenas torcer para que a proteção oferecida por um objeto inanimado fosse verdadeira. Apertou o metal com força, enquanto caíam os primeiros pingos de chuva na sua face.

Texto autoral de uma mente em ebulição. Se gostou, aperta o botão abaixo, deixa um curtir, escreve um comentário e faça um aspirante a escritor feliz.

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One thought on “O Pranto da Pátria Mãe

  • Mariana Larini 4 de maio de 2022 at 13:13 Reply

    Impecável! Diferente de tudo que já li aqui, mas surpreendentemente bom.

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