Sem compreender se era seu corpo ou casa que tremia, Iryna foi retirada do esconderijo pelo jovem soldado russo. Os passos pesados e a batida na porta trouxeram alguma esperança para seu coração, mas foi rapidamente varrida, abandonando-a com sua fraqueza acinzentada. As incertezas eram seu único alimento há dias. As saídas rareavam, vivia de inventar lampejos na escuridão. O frio contaminava as águas escuras do Mar de Azov. Aquele rapaz poderia ser o seu filho.

— Onde estão os outros? Cadê todo mundo, babushka? — urrou Andrei ao empurrar a mulher para fora do porão.

Com o rosto cortado e os olhos cerrados por causa da luminosidade, Iryna tropeçou em destroços. Ainda teve tempo de colocar a mão no bolso, tocando com seus dedos secos e ásperos a alegria de uma outra vida trazida dentro do relicário.

 

*****

 

— Mamãe, mamãe! Falta muito para chegar?

— Só mais um pouco, querido. Tenha paciência.

Iryna e seu filho sacolejavam no compartimento da classe mais barata do trem, abandonando os subúrbios de Moscou rumo a Mariupol.

— O papai vai estar lá? — o menino olhava com carinho a imagem dentro do artefato de metal, preso a um fino colar no seu pescoço.

— Espero que sim, meu filho. Espero que sim.

 

*****

 

O azul dos olhos de Iryna desbotava. Ela juntou as mãos e começou a orar baixinho em russo. Não por si, mas pelo soldado à sua frente, e principalmente pelo rapaz com quem ele se assemelhava. Pensou no marido, lembrou da mãe, pediu desculpas em silêncio.

Andrei não sabia ao certo como tinha parado na linha de frente ao sul da Ucrânia. Deveria ter ouvido seus amigos e familiares quando ofereceram ajuda, e até a possibilidade de suborno para livrá-lo do alistamento. Era orgulhoso. Acreditava ter pleno poder para decidir sua vida, e lutar se fosse preciso, até se deparar com o primeiro corpo. Agora estava tarde para arrependimentos. Era necessário ser forte, honrar a Pátria Mãe.

— Cale a boca, mulher! Vomitando em russo. Eu conheço a sua origem imunda! Onde eles estão escondidos?

Iryna gostaria de saber, queria tanto encontrar seu filho para um abraço apertado,  mas se soubesse, tinha receio de não resistir à tortura O medo era maior que a vontade de um afago. A verdade, mesmo limitada ou escondida, era menos dolorosa do que uma mentira.

Poderia ter escapado junto com a nora e a neta, quando elas foram para a fronteira polonesa. Entretanto, outro abandono seria fulminante. Nunca vou me perdoar se ele voltar e eu não estiver aqui para recebê-lo. Apertou o relicário com a pouca força que restava.

 

*****

 

Aos 21 anos, Iryna deixou o lar e migrou para o interior da União Soviética. O sonho de formar uma família e educar as crianças na sua terra natal foi desmantelado com o fervor da Guerra Fria. Era perigoso continuar no mesmo local depois da descoberta do paradeiro de Dimitri. Então, mesmo grávida, se despediu do marido com um nó na garganta.

— Siga para o interior, procure pela minha irmã e não fale com ninguém sobre nós. Eu preciso enviar este telegrama antes de poder encontrar vocês — Dimitri, com seu corpanzil, acenou para a esposa se distanciando pela janela do trem. 

Ela não queria partir sem o marido, porém a promessa fixada em olhares firmes, ao ceder o relicário que carregou a vida inteira, demonstrava que não havia outra opção.

— Leve-o e me entregue quando a gente se encontrar de novo. Dentro estão as imagens dos meus antepassados. Eles protegerão a jornada de vocês.

 

*****

 

Iryna mentiu para preservar a inocência de uma criança. Alimentou a crença de uma paternidade heróica, porém distante. No fundo, tinha receio que fossem atrás do seu menino. O brilho dos olhos dele eram mais acolhedores que a cor do vazio.  Nunca chegou notícia alguma de Dimitri. Internamente, um pressentimento apitou junto com o trem, no dia que ela partiu. Seu amado viveria apenas nas lembranças.

Quando o soldado a tocou com o dorso da mão, ela previu o fim. Não adiantaria derramar as lágrimas guardadas durante tantos anos. Não haveria onde se esconder, não poderia recuperar o tempo. Restava apenas torcer para que a proteção oferecida por Dimitri fosse verdadeira. Apertou o metal, enquanto caíam os primeiros pingos de chuva na sua face.

Texto autoral de uma mente em ebulição. Se gostou, aperta o botão abaixo, deixa um curtir, escreve um comentário e faça um aspirante a escritor feliz.

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One thought on “O Pranto da Pátria Mãe

  • Mariana Larini 4 de maio de 2022 at 13:13 Reply

    Impecável! Diferente de tudo que já li aqui, mas surpreendentemente bom.

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