Um retrato sobre palavras e o silêncio

By Tomate

Berlin, algum dia de novembro 2020

Era mais uma tarde comum em Berlim. Final de outono, começo de inverno, quando o sol começa a se esconder antes das 5 da tarde, e o frio repentinamente causa arrepios e animosidades. Época em que abandono a bicicleta, e volto a utilizar o transporte público. Talvez uma boa luva, cachecol e gorro dessem conta do recado, mas a preguiça é a rainha da estação.

Caminhei rapidamente até o terminal de trens, enquanto ouvia um episódio de algum podcast (um hábito que se consagrou durante a pandemia), vesti minha máscara de proteção contra o famigerado vírus, e me sentei em um banco vazio, onde normalmente caberiam duas pessoas. Por precaução ninguém senta ao seu lado, salvo em horários de maior movimento, o que não era o caso. No assento à minha frente, uma pessoa entretida com seu telemóvel aguardava o destino final.

alexandreplatz

Fatos cotidianos de uma metrópole europeia, que com seus mais de 3 milhões de habitantes se vangloria de ter um ambiente descontraído, cosmopolita, diversificado. A capital de um país, mas que brincam não pertencer ao mesmo, vide a sua diferença para as outras localidades germânicas. Dizem ser mais tolerante por isso, e eu mesmo já pronunciei certa frase.

Alguns assentos à frente percebi uma movimentação de passageiros, mas o volume alto nos fones de ouvido não me permitia interpretar o que ocorria. Discretamente pausei o podcast, e apurei os ouvidos. Para descrever o que se segue utilizarei nomes fictícios, até por ter desconhecimento dos reais.

Introduzo 2 novos personagens: João e André, que sentados frente a frente também esperavam pelo ponto de chegada.
João estava carregado. Uma mala grande de rodinhas no chão, uma sacola de pano com roupas no banco ao seu lado, e outra de plástico na sua mão. André estava com o olhar perdido pela janela, enquanto passava as mãos nas suas madeixas longas, grisalhas e oleosas.

João levantou-se e foi até a porta do trem, para analisar o mapa que pendia acima dela. Parecia perdido, e ao voltar para seu lugar, ainda de pé, pediu para André alguma informação. Não compreendi muito bem onde ele queria chegar, mas eu estava longe e ainda com o fone a tapar meus tímpanos. Percebi que João tentou se expressar de outra forma, mostrando algo no celular, mas André fez um sinal para ele sair da sua frente. Esse foi o gesto que fez com que eu parasse de ouvir o podcast.

berlim

João falou novamente, e agora pude notar que ele falava em um alemão de sotaque carregado (o que é completamente normal), pausadamente e gostaria de ir para o aeroporto. André esbravejou. Disse que não entendia o que João falava, e era para ele sair da frente dele. João, não entendendo o motivo de tanta truculência, se voltou novamente para o mapa, e foi neste momento que o metrô freou e sua sacola com roupas deslizou do banco, diretamente sob as pernas de André, que furiosamente as chutou, reclamando acintosamente.

João questionou para que tanta raiva.
Qual o motivo para uma pessoa estar tão desgostosa com tudo e todos? Por que ele havia chutado e pisoteado suas roupas?
Ele aparentava muita calma, apesar de tudo. André gritava em alemão que ele só queria um pouco de paz, que já tinha falado que não sabia como chegar no aeroporto, e que João estava enchendo o saco. Agressivo, antipático, e definitivamente racista.
Eu não havia descrito esse fato até agora, mas é necessário. André era um alemão alto, nos seus 50 anos, com fisionomia carcomida pelo tempo e pelo ódio. João era um negro, que pelo sotaque pude perceber não ser originário da Alemanha, mas que já morava aqui por um tempo.

O impasse entre eles parecia passar despercebido por todos no trem, que fingiam que uma tela de celular era mais importante do que o respeito ao próximo.
João perguntou mais uma vez porque André havia chutado suas roupas, que espalhadas pelo chão sujo eram recolhidas uma a uma, quando houve o golpe final: Fick dich!

Fick dich pode ter vários significados na rica e clamorosa língua portuguesa. Entre as mais recorrentes: foda-se ou vá se foder.

João ficou possesso. Não recebeu uma simples informação, teve seus pertences esculhambados e recebeu um xingamento como cereja do bolo.
– Fick dich? Fick dich? Você não tem respeito. Eu te peço educadamente uma informação, que você pode até se recusar a dar, é o seu direito. Mas chutar as minhas coisas e me ofender? Fick dich. Foda-se você!

Eu me levantei, achei que iria acontecer algum conflito corporal, e André respondeu:
– Você nem sabe falar alemão. Saia daqui. Me deixe em paz! Já te falei tudo que tinha para falar. Você nem alemão é!

João não deixou barato:
– Não sei falar alemão? Quer que eu te xingue no meu idioma então?

Nesse momento eu não sabia o que esperar, qual sonoridade sairia da boca de João, e me surpreendi. Senti que era a confirmação de um chamado. Não sei explicar, mas imediatamente me coloquei ao lado de João e xinguei no mesmo idioma que ele. Ele era, afinal de contas, de Angola, e eu conhecia muito bem a junção das 3 palavras que ele proclamou: filho da puta.

Filho da Puta. Filho da Puta.

João olhou para mim e perguntou: brasileiro?
Sim. Mas não tínhamos tempo para trocar figurinhas. O filho da puta era mais chamativo.
Consegui ainda, com o bater acelerado do meu coração, falar para André que ele não era melhor do que ninguém por ser alemão. Que respeito não tem local de nascença, e que ele era um escroto, racista, imundo. Nem sei que palavras utilizei para expressar isso de uma forma que ele compreendesse, mas ele ficou quieto.

Virei para João e perguntei onde ele gostaria de ir. Mas ele disse que estava tudo bem. Ele desceria na próxima estação e pegaria a conexão para o aeroporto. Confirmei que estava correto, e em poucos segundos ele já estava fora do metrô aguardando pelo próximo comboio.

Voltei ao meu assento, coloquei novamente o fone no ouvido e tentei me acalmar, enquanto percebia olhares de pessoas omissas ao meu redor. Ninguém havia falado um pio, como se fosse mais uma situação corriqueira na redoma de cristal berlinense.

Nada como um “filho da puta” bem aplicado para unir pessoas.

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One thought on “Um retrato sobre palavras e o silêncio

  • Raquel dezembro 2, 2020 at 16:18 Reply

    Admiro muito, já que acho que é preciso de posicionar, mas tbem acho que eu não teria coragem de me manifestar.

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