Reticências Literárias

By Tomate

Juro que pensei que nunca estaria completo.

Você sabe quantos anos se passaram?

Quatro ou cinco, nem sei mais. Só sei que demorou.

Nem achava que iria para frente, mas saiu. Entre linhas e mais linhas de rabiscos, rasuras, desenhos, caricaturas, correções, páginas removidas, recortes colados, manchas de café e de vinho, fui forjado. Lapidado talvez. 

Passei meses na escuridão fria e inóspita de uma gaveta. Fui carregado no fundo de uma mochila para parques, bibliotecas, praias e lagos. 

Minto. Ainda não era eu. Minha mãe que passou por tudo isso. Ela era uma caderneta bonita. Sem linhas, com folhas brancas, capa preta. Ficou desgastada com o tempo, as marcações nas suas orelhas não escondem isso.

Tenho orgulho de dizer que sou uma versão melhorada dela. 

E sinto em lhe contar que sou filho único. É um caso raro até. Fui escrito, diagramado, editado e publicado para ser apenas um. Sem cópias. Acho que meu pai tinha vergonha de mim, ou medo de me mostrar ao mundo. Nunca tivemos essa conversa.

Você já sentiu o aroma de um livro? Já colocou seu nariz rente às suas folhas de papel, para apreciar a fragrância que emana delas?

Pois fizeram muito isso comigo. Nunca entendi o porquê, mas foi a primeira coisa que meu autor, digo, progenitor fez ao me abrir. Quando não eram as narinas coladas à minha face, eram suas mãos engorduradas, deixando manchas na minha capa, ou sujeira entre minhas páginas. Tanta falta de respeito, que nem gosto de lembrar. 

Cheguei a passar semanas em um cesto, ao lado da privada no banheiro. Eu senti muito medo. A cada descarga eu pensava: E se o papel higiênico acabar e eu for a única folha disponível naquele recinto? Não, não. Melhor nem imaginar.

Certo dia, jogado no canto do sofá, consegui avistar meus semelhantes na estante. Um mais vistoso que o outro. Capas deslumbrantes, coloridas, com fontes variadas indicando seus títulos, autoras e autores. Será que um dia terei lugar em tal altar? Talvez ali ao lado do Leminski. Pode ser até embaixo do Machado, sou humilde. Só de pensar em dividir o mesmo espaço que Carolina ou encostar minha face em Cecília, já tenho arrepios. 

Todos os dias em que meu autor me pega, eu acho que ele vai me colocar na estante. Fantasio também a glória de ser autografado e entregue para alguém. Seria majestoso. Porém tento me contentar apenas com as mãos de quem me escreveu.

Já era tarde da noite e meu pai estava um pouco alcoolizado, quando tudo aconteceu.

Senti lágrimas caindo na minha contracapa e fui arremessado na parede. Sob gritos que não pude compreender. Assim, sem mais nem menos. Estraçalhado, dilacerado, passei a madrugada aberto no chão. Fazia muito frio. Tentei chamar por alguém, mas as palavras mal saíam de mim. Gaguejava entre prantos:

– Itamar! Ana Maria Gonçalves!! Jorge Amado!!!! Por favor, me ajudem!

Silêncio. Como em uma biblioteca.

Era perto do meio dia quando ele acordou. Passou por mim e ignorou. Parecia não lembrar que tinha me maltratado. Eu aceitaria um pedido de desculpas. Mas o destino que me foi reservado era inesperado. 

Em um movimento rápido fui jogado para dentro de uma bolsa e saímos de casa. É bom respirar ar puro, mesmo enclausurado e no escuro. Balancei ouvindo passos. Passei por apertos no ônibus. E avistei a luz, clara e reluzente, através do zíper que se abriu.

Fui retirado e colocado em algum lugar. Ainda estava me situando quando percebi que estava cercado de outros volumes. Todos velhos e desgastados. Mas eu estava em uma estante. Eu estava em uma estante! Onde está meu escritor? Preciso contar para ele que finalmente alcancei meu objetivo. Olhei para um lado e para o outro, e vi que ele saía pela porta. Então foi ele que me deixou aqui. 

Eu nunca tinha visto tanto livro em um mesmo ambiente. Seria esse o paraíso? Será que morri e ressurgi para finalmente estar com meus semelhantes? 

– Com licença, senhor…. Como se chama? Quem foi seu mestre?
– Sou Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. E você, meu jovem? Nunca te vi aqui antes. Quando chegou aqui no sebo?

Sebo. Já me falaram sobre eles. Alguns o chamam de o grande cemitério literário. Local onde obras carcomidas e desgastadas são desovadas. Disseram que com muita esperança alguém sai de um. Outros contam que os melhores leitores os frequentam, e que não havia com o que se preocupar caso eu fosse enviado para lá.

Uma pessoa entrou. Uma pessoa entrou! Se comporte. Mostre que você é importante.

– Olá, meu caro leitor. Olhe aqui! Veja como sou bonito e valoroso. Leia minha sinopse, você não vai se arrepender. Não me julgue somente pela capa. Espere! Volte aqui. A seção de auto ajuda não vai te amparar. Por favor, só me abra….

Risadas. Todos os livros da prateleira começaram a gargalhar. Não seria no grito que eu ia conquistar um leitor. Mas como então? Se nunca fui lido por ninguém, fora meu escritor?

Fazia 3 dias que eu estava ali, sendo pego por poucas mãos, quando o dono do estabelecimento me notou. Franziu o cenho, perguntou para um ajudante se ele sabia desde quando eu estava ali. Fui parar na sua casa naquela tarde.

Suas mãos já rugosas me tocavam com delicadeza. A cada virada de página eu abria mais o meu sorriso. Será que ele está gostando de mim?

Passei a noite no seu colo. Nunca havia ficado tanto tempo assim, sendo digerido por uma pessoa. Fui junto com ele novamente para o sebo na manhã seguinte, mas desta vez não fui para a prateleira. Continuei nas mãos daquele senhorzinho. E nesse vai e vem, chegou-se ao meu final. Fui fechado e deixado na bancada. 

– Vamos, diga-me. Como sou para você? O que achou da minha leitura? 

Tudo que eu notava era um olhar distante, perdido, como se ele estivesse matutando o que eu tinha lhe contado. Talvez eu tenha o transportado para meu universo.

Voltei para sua casa, e fui deixado em uma cômoda de um quarto diferente, com um bilhete em cima: “você precisa ler isso, minha neta querida”.

Uma jovem chegou, jogou as chaves ao meu lado, olhou o papel e foi dormir.

Livros não dormem, sabe? Nós ficamos só na espreita, até que alguém nos pegue e possamos nos comunicar.

Pela manhã eu falei com ela. Recitei minhas metáforas, ironias e constatações. E por mais que minha comunicação seja direta e objetiva, não tenho como controlar o que entendem de mim. 

Estávamos nos dando bem. Ela me virava com avidez. Até que pegou uma caneta e me riscou. Grifou uma frase do segundo capítulo, outra do terceiro. Fez uma anotação. Colou um adesivo colorido com uma interpretação que eu nunca havia imaginado. Fiquei parecendo um corpo todo tatuado, e acabei aprendendo que a minha mensagem ressoava diferente do que meu escritor havia proposto. 

Eu que já era único, fiquei ainda mais exclusivo com tantos sublinhados. A princípio me achei sujo, mas com o tempo percebi que estava mais belo.

Acabamos virando melhores amigos, mesmo que eu não saiba o seu nome. Acho que ninguém nunca me entendeu de forma tão profunda quanto aquela garota. Pensava que tinha vindo ao mundo somente para ensinar, e me toquei que na verdade tinha muito a  aprender, sobre mim mesmo, inclusive.

Fui emprestado para uma amiga. Com a recomendação de cuidado e zelo.

Deveria ter esperneado, vociferando que livros emprestados quase nunca retornam, porém minha força estava apenas nas palavras datilografadas.

Fui colocado em uma gaveta, assim como minha mãe, e lá perdi a noção do tempo. Se foram semanas, meses ou anos, não sei precisar. Mal tinha consciência se era dia ou noite. 

Já estava conformado que meu destino seria a penumbra, quando o armário se abriu e me tomaram novamente às mãos. 

Que sensação agradável. Não ligaria nem se colocassem a narina na minha face.

Porém uma criança havia me retirado da prisão. Um jovem menino, nem 10 anos de idade.

– Espere. O que você está fazendo comigo? Calma. Por favor, não!

Com um giz colorido, aquele pequeno endiabrado me pintou de cabo a rabo, ou de frente e verso, eu deveria dizer. 

Dessa vez não havia graça. Não havia compreensão, nem anotação referente ao meu conteúdo. Era uma simples pirraça infantil. 

Resignado comecei a entonar meus versos. Passei mentalmente minha história. Talvez assim eu não prestasse atenção no que estava a acontecer. Quem sabe dessa forma eu não seria apagado.

Quando repentinamente fui rasgado. A miniatura de ser humano me arrancou uma folha. E outra página. Mais uma parte de mim. Eu sangrava palavras através de cortes disformes. Perdia o meu sentido, me tornava incompleto. Fui jogado para o lado e ainda consegui ver que meus fragmentos haviam se tornado aviõezinhos de papel. Logo eu, que sempre quis voar e alcançar o mundo. Definitivamente não desta forma.

Chorei mudo, enquanto meu algoz partia. Provavelmente para fazer alguma outra atrocidade. 

Eu já não me reconhecia mais. Esqueci o meu clímax, tanto quanto minha conclusão. Havia me tornado um amontoado de retalhos sem nexo.

Posicionado agora sob um móvel velho e desgastado, ao lado de uma lista telefônica já sem serventia, vi a vida passar, torcendo para que aquele menino nunca mais retornasse.

Os dias se tornaram vazios, talvez para compor o meu conteúdo, igualmente perdido. Meu destino seria provavelmente queimar em uma fogueira, ou virar um bloco de anotações. A segunda alternativa era o que me mantinha esperançoso. Assim, ainda poderia aprender alguma informação corriqueira. Quem sabe uma receita culinária?

Comecei a amarelar. Era o sinal da idade que chegava. Algumas traças se alimentaram das minhas entranhas. A lista telefônica já partiu há tempos. Mas eu teimava em ficar debaixo daquela cômoda, junto com alguns semelhantes que afirmavam terem sido best sellers no passado.

Era uma tarde de forte calor, quando minha amiga chegou. Minha amiga, não. Minha melhor amiga. Acho que comentei sobre ela. Fazia anos que não nos víamos, e dessa vez ela me notou. Ferozmente pulou do sofá onde estava, me puxou para perto e gritou com a pessoa que me tomou emprestado. Vociferou que eu não tinha sido devolvido. Perguntou o que ela havia achado de mim, mas a resposta foi que eu não fui lido.

Retornei nas mãos, já adultas, daquela que seria para sempre a minha pequena. Aquela que tanto me compreendeu, e igualmente me ensinou. 

Será que ela ainda se lembra da parte que me falta?

Cheguei à sua casa eufórico. Estava também saudoso do seu avô. Porém não o vi mais. Para o sebo também nunca retornei. Provavelmente o tempo o tenha levado.

Fui lido novamente, mesmo que incompleto, e comecei a procriar. No colo da minha parceira passamos a dar continuidade a nós mesmos.

Ela começou a redigir o que me faltava em um bloco de notas, e eu passei a compreender o meu significado. Se era igual a antes, não sei afirmar. Já não me recordo mais. Só sei que eu me sentia belo novamente. 

Da delicada letra, traçada à caneta azul na superfície do papel, fui transferido por completo para um computador. De lá fui transportado por canais de fibra óptica, através de um veículo chamado email até uma outra pessoa, que também de uma tela me leu. Eu me multiplicava. Não sei explicar como, mas agora estava em mais de um lugar ao mesmo tempo. 

Eu chegava de certa forma idêntico, mas passava a ser modificado em cada terminal. Recebia ajustes, comentários, e sugestões. Trafeguei mais algumas vezes naquele canal de extrema velocidade. Certas vezes para minha amiga, em outras para novos leitores. 

Até que chegou o momento derradeiro, quando fui unificado, e dentro de uma gráfica percebi que tinha dado sequência na árvore genealógica. Um filho nascia. Com uma nova capa, uma nova diagramação, e com o mesmo nome de autor. O meu escritor se tornava avô. 

Acho que não contei a vocês, mas ele não tinha colocado seu verdadeiro nome em mim. Não me perguntem o porquê. Eu mesmo gostaria de saber.

Contente que estava com a minha prole, fui informado que ela era maior do que eu pensava. Meu filho tinha irmãos. Gêmeos. Idênticos. Muitos deles. Só na primeira gestação foram na casa das dezenas. 

Não sei se você já teve algum rebento, talvez eu esteja divagando apenas obviedades, mas aprendi que a gente deve criá-los para o mundo, para os outros e não para nós mesmos. Um deles me contou que estava na vitrine de uma livraria vistosa, dentro de um shopping center, prestando atenção nas pessoas que passavam, enquanto, intrigado, observava os demais livros ao seu lado perfilados. Títulos imperativos com palavras de baixo calão, seja foda aqui, artes de ligar o foda-se acolá. Subtítulos indicando fórmulas de sucesso, dinheiro fácil e sabedoria. Coragem e atitudes vendidas como se fossem receitas de bolo. 

Ele estava assustado. Sentia-se isolado no meio de tantos clichês. Coitado, ainda não havia percebido que nem todos os livros devem ser confiados. Quem dirá os leitores?

Uma das minhas crias, alocada em uma prateleira de uma pequena e simpática livraria de bairro, sem saber a princípio o que estava ocorrendo, foi comprada por um rapaz de meia idade e levada para um apartamento escuro e mal cuidado. 

Foi lida e relida em poucos dias. Até que na falsa folha de rosto aquele leitor escreveu em uma letra miúda e corrida uma dedicatória a si mesmo, autografando com o mesmo nome do autor que um dia me escreveu. O meu filho encontrava o seu avô e finalmente tomaria espaço na prateleira que um dia, eu tanto sonhei conquistar. 

Se meu pai reivindicou a autoria do seu neto, eu não fiquei sabendo. Acho que ele não queria se expor, mas pode ser que essa história esteja apenas começando, e não chegando ao seu final.

5 thoughts on “Reticências Literárias

  • Tozé 7 de outubro de 2021 at 01:31 Reply

    Um texto belo e interessante pra nós lembrar que livros nos fazem viajar e aquecem nosso coração, cada um de uma maneira, com essa arte de contar histórias que já leva milhares de anos

  • Denise 7 de outubro de 2021 at 11:46 Reply

    Amei!! Divertido e pude passear pela estória ! Quero mais !!

  • Faraó 7 de outubro de 2021 at 13:00 Reply

    Muito bom! Adorei a cadência do texto, bem envolvente.

  • Rita 7 de outubro de 2021 at 22:41 Reply

    Mergulhei nessa história tão envolvente… Diversos sentimentos afloraram por este “livro” ignorado, amado, esquecido, rasgado, reescrito e valorizado. Difícil é evitar as lembranças dos que passaram por mim e alguma situação foi similar com este… Senti remorso, mas prefiro dar asas aos que me ensinaram algo.
    Obrigada Tomate, ler seus artigos são bons momentos de um dia de primavera…

  • Norma 8 de outubro de 2021 at 11:05 Reply

    Viajei junto com a história. Leitura de uma tacada só, afinal queria saber qual seria o derradeiro destino do livro. Maravilhoso!

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