7 minutos (2,1 km) de distância. 4.21 estrelas. Viagem de 58 minutos (22,8 km). Destino: Expotrade Convention Center, Pinhais.

Caíam canivetes do céu no começo da tarde. Gustavo, de uns trinta e poucos anos, acelerava seu veículo em busca da próxima corrida. Estava na labuta desde às 6 da manhã, e já havia estourado seu próprio limite em alguns passageiros, desde que anunciou mentalmente a última do dia.  Não se distinguiam formas, apenas luzes de faróis e postes, dançarinos conforme a tonalidade dos semáforos. Um aromatizante em forma de pinheiro balançava do espelho retrovisor, espalhando uma fragrância de menta adocicada.

– Boa tarde. Rafael? – Gustavo estava exaurido.

Três jovens rapazes se aproximaram do Renault Sandero alugado. Todos com botas de couro, calças jeans e cintas afiveladas. O mais alto deixou o chapéu de cowboy cair no chão antes de entrar. O do meio vestia um colete preto sobre a camiseta de mangas curtas, para não perder a oportunidade de mostrar o bíceps crossfiteiro. Rafael trajava uma camisa xadrez colada no corpo, que lhe conferia super poderes heteronormativos. O óculos de sol pendurado na gola era um detalhe primordial, mesmo em dias sem sol. Eles não conseguiam se lembrar da última vez que entraram em um carrinho daqueles.

– Toca para o Country Festival, que a mulherada tá esperando! – risadas, risadas, risadas.

A chuva não dá trégua e o alternar entre verde, amarelo e vermelho invade as pupilas cansadas de Gustavo, fundindo-se com o afrobeat de Fela Kuti que emana das caixas de som do carro, para criar imagens delirantes. O céu se abre numa profusão de sorrisos e aplausos, corpos suados balançam na sua frente, ritmados à batida que pulsa ao seu redor. Um saxofone é cuidadosamente manuseado pelas suas mãos. O tilintar de copos em riste brinda às noites recorrentes. Abraços e beijos acalorados compensavam momentaneamente a jornada intensa e o fraco retorno financeiro.

O horizonte turva-se um pouco mais, e repentinamente seres mascarados passam a esvaziar os salões e as pistas, para encher hospitais e necrotérios. O pai de Gustavo não aguentou nem quinze dias. Era forte e atlético, reluzia alegria, mas não teve tempo de se despedir. Dona Maria, promovida a viúva, foi privada de velório e enterro decente. Suas crianças foram destituídas do principal sustento do lar.

– Cara! Moço! Motorista! Tá viajando, caralho? Troca essa música ai, que bad trip escrota isso! 

Gustavo desculpa-se e procura uma playlist de sertanejo. Os sinaleiros pareciam coordenados para fechar sempre que ele se aproximava. O vermelho se esparrama através da sombra do pinheiro mentolado, balançando-se hipnoticamente, controlando suas lembranças. Mais uma vez os cafés e bares estão vazios, mas agora a cama dos seus pais também está desocupada. Dona Maria seguiu os mesmos passos de seu marido. Órfãos, independentemente das idades, eram relegados a dilemas adultos. Gustavo começou a tocar saxofone nas ruas, no calçadão da Rua XV, na frente do prédio histórico da Santos Andrade, em terminais de ônibus. Com um chapéu surrado, estendido na sua frente, acumulava esparsas moedas, tilintando como se jogadas em um fundo poço que não realizava muitos desejos.

– Me dá o celular! – grita uma voz rouca desesperada. – Me dá o celular! – repete o passageiro no banco traseiro para seu amigo. – Deixa eu ver a foto dessa louca!

Gustavo balança a cabeça, tentando se desvencilhar da realidade, e olhando para seu novo aparelho no painel, apitando novas corridas, sente saudades do saxofone que preciou vender. Mas era ele, ou algo para comer.  

– Que bom que os shows estão voltando! Tava sentindo falta desse agito – vibra o chapéu de vaqueiro.

– Nem me fale. Não aguentava mais ficar em casa! – reclama a calça colada.

– Cala a boooca! Como se vocês tivessem ficado em casa! – confronta o coletinho preto.

Risadas, risadas, risadas. 

Os aplicativos não fazem o repasse da alta dos preços, e a inflação teima em transitar no vermelho. As luzes passam em velocidade, piscando, ultrapassando, correndo indiferentes. Gustavo vê novamente as festas e bares enchendo mais uma vez, porém ele não faz mais parte do gingado. Não é ele quem toca a música. Não é ele quem toma as decisões. Não é Gustavo quem se diverte. Mas é a família dele que passa fome, se privando do almoço para jantar, não por opção. Gustavo acelera. Pisa fundo, como se os pedais fossem os causadores da sua dor. Esmaga a indiferença e o descaso com a sola do seu pé. E em um cruzamento já perto do destino, encontra o fim da sua agonia.

Rua XV

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