Poucas coisas me tiram realmente do sério.

Um número desconhecido aparecendo na tela do meu celular, durante a execução de uma música que eu gosto é uma delas – malditos, quase sempre a oferecer algum produto que não preciso ou requerer o pagamento de uma dívida que não é minha.

Bater o mindinho na quina de um armário ou de uma cama é outra – incrível como sempre estão bem posicionadas, fazendo inveja para o Romário em fim de carreira.

Ver a cara seborreica do presidente do Brasil também entra no rol das alterações de humor cotidianas. Não sei a sua posição política, pouco me importa também, já que estou falando do ser humano, e como membro da mesma raça e espécie, posso afirmar que sinto vergonha da existência de nosso representante. Asco mesmo. Nojo, repulsa, desgosto, fastio, pode pegar um dicionário de sinônimos e acrescentar o que melhor calhar.

Vizinhos são outros que detém o poder de estragar o meu dia.

Não gostaria que fosse assim, mas nos perdemos nas práticas sociais. Penso até que deveria existir um aplicativo para encontrar o vizinho ou a vizinha perfeita. Sem nenhuma conotação sexual ou amorosa, eu quero um match com alguém de bom humor, com gosto musical similar, que ande de salto somente em horário comercial, que me ofereça algumas guloseimas e leve outras em troca. Como uma velha tribo deveria funcionar, cada membro zelando pelo outro. Nem falo em amizade, me refiro mais a um senso de comunidade.

Pode até colocar bandeira do Brasil na janela em ano que não tem Copa do Mundo. O que não pode é ser um caça níquel de reclamações.

Dias desses recebi um chamado: as plantas da janela estavam a obstruir a harmonia da fachada do edifício!
Na semana seguinte discursaram no grupo do WhatsApp do condomínio – praticamente um clube de ranzinzas – sobre os gatos no quarto andar, que soltavam seus pêlos durante os raros dias de sol em Curitiba.
Passei a investigar de onde poderiam ter vindo tais disparates, e eis que observo no andar subjacente uma senhora de cabelos grisalhos, trajando um casaco oriundo, muito provavelmente, do período regencial, e com um olhar de poucos amigos e muitos atritos.
Estava escrito na sua testa que ela era a detratora, certamente fazendo uma delação premiada em prol da família tradicional e dos maus costumes. 

Diante de tal repulsa, há poucas alternativas.
Uma delas – a que mais me agrada – é manter meu posicionamento, fincar o pé e deixar a janela aberta. Vai angariar mais ódio, mas deixará os gatos felizes, e entre felinos e uma velha rabugenta, não restam muitas dúvidas.
A segunda possibilidade é ceder, sem sede de viver. Fechar as persianas, deixar a escuridão assolar os corações e fingir que preza por um convívio mútuo de plenitude.

O caminho que escolhi é o de não me tornar igual àquela senhora, que parece que já desistiu dos seres humanos, igualzinho ao nosso presidente.

Texto autoral de uma mente em ebulição. Se gostou, aperta o botão abaixo, deixa um curtir, escreve um comentário e faça um aspirante a escritor feliz.

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