Não era um dia qualquer. E nesta fase da minha vida isso fazia a maior diferença.

Meus filhos já estavam casados, minhas netas frequentavam a escola, e eu, bem, eu via o tempo passar. Se esvaindo pelas mãos enrugadas e fugindo de mim, já que minhas pernas não se moviam mais como antes.

Nasci em uma cabana circular, cresci andando a cavalo, e morei em diversos acampamentos e vilarejos. Éramos nômades, mas faz algum tempo que estou no mesmo local. Incrustado nas montanhas rochosas da Ásia Central. 

Vi conflitos, trocas de bandeiras e de líderes. Meu pais contavam que fizemos parte da Rota da Seda, antes que os mongóis nos invadissem. Já reparou como os antigos são sempre nostálgicos e saudosistas? Não me eximo disso.

Quando vim ao mundo, a União Soviética tomou esse território para si. Hoje chamam apenas de Quirguistão, a terra dos quirguizes, e sinto orgulho desse nome.

Não tive muito estudo formal, porém aprendi o essencial para deixar a vida fluir.

Moro hoje com meu filho, sua esposa, e três crianças maravilhosas. 

Sinto falta do meu marido. 

Quando chegávamos em um novo abrigo, eu me encarregava da costura, de produzir a manteiga e curar os alimentos para os invernos rigorosos que estavam por vir. Tínhamos pouco, e se a terra não nos oferecesse mais o essencial era necessário migrar para um outro lugar.

Nossa casa hoje é fixa e maior que as tendas nômades que construímos no passado, inclusive com dois quartos – um para meu filho e sua esposa, e outro onde durmo com as pequenas, lado a lado, deitadas no chão. Elas são muito carinhosas comigo.

Somos todos muçulmanos, que Allah nos proteja.

Eu estava conversando com minha nora, quando Nurissa entrou ofegante na casa. Minha neta mais velha estava esbaforida e radiante. Perguntava se poderia trazer um estrangeiro para jantar conosco. Havia um deles na nossa vizinhança. Um estrangeiro! 

O que será que ele veio fazer em um povoado de pouco mais de 800 habitantes no Quirguistão? 

De onde será que ele vem? Aposto que do Japão ou do Vietnã.

Quantos anos será que ele tem? Será alto ou baixo? Talvez ele seja um bom partido para Nurissa, que já está quase com 13 anos.

Torci para que meu filho aceitasse a proposta. Não a do casamento, isso fantasiei, mas sim a do jantar. E meus pedidos foram acatados. Às 19h daquela fria tarde de outono, um estrangeiro adentrou nossos aposentos.

Fiquei inquieta, alvoroçada.

Nos sentamos ao redor da mesa, no chão como de costume. Minha nora preparou um Beshbarmak, nossa maior iguaria. Um cozido de carne de cordeiro com uma massa quadriculada feita de farinha e ovos. Comemos com as mãos.

Ele falava engraçado. Em uma língua que eu nunca tinha ouvido antes. Nurissa era a única que entendia. Um tal de inglês. Falava com ele e traduzia para a gente. 

Eu tinha tantas perguntas, mas igual vergonha. Fiquei atenta, ouvindo o que meu filho dizia para ele. 

O estrangeiro tinha uma voz doce, de um jovem. Disse que era de um lugar chamado Brasil. Não sei onde fica, talvez seja alguma vila mais ao sul. 

Ele estava viajando pela região. Será que era um nômade? Não sei.

Estávamos muito honrados daquela visita. Meu filho perguntou se ele gostaria de dormir conosco, passar mais tempo debaixo do nosso teto, mas o rapaz disse que não, que precisava partir. A estrada o chamava, como por tantos anos me chamou na juventude. 

Ele estava já se despedindo, quando abri a boca pela primeira vez na frente dele. 

Discretamente pedi a Nurissa que me ajudasse e perguntei se ele permitiria que eu o visse. Minha neta falou naquele idioma truncado por um tempo e disse que ele havia aceitado, que estava confuso, pois não tinha percebido a minha condição física, mas acatou com bom grado. 

Levantei com apoio e fiquei frente a frente com o estrangeiro. Toquei seu rosto. Percorri seus traços com meus dedos. Senti sua textura, o tamanho do seu nariz, das orelhas, dos lábios. Deixei-me levar pelas suas curvas. Esqueci do tempo. Quando voltei a mim, senti novamente tomada pela vergonha e pedi para Nurissa falar que ele era muito bonito.

Eu nunca havia visto um estrangeiro antes, e alguns dirão que nunca vi. Já que quando tive a chance, eu já era idosa e cega, mas não deixo de pensar que nunca esqueci o verdadeiro significado da beleza e aquele ali na minha frente era dos mais belos.

Baseado em fatos reais, sendo essa imagem a prova de tal emocionante encontro
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